Ações Americanas #6: Como grandes gestores movimentam o mercado

Entenda o que é a BlackRock, como ela construiu o maior portfólio de ETFs do mundo e o que isso significa para o investidor brasileiro.

Resumo
  • A BlackRock é a maior gestora de ativos do mundo, com US$ 14 trilhões sob gestão — valor superior ao PIB de praticamente todos os países exceto EUA e China — e se tornou a principal acionista de grande parte das empresas do S&P 500; sua posição dominante no mercado de ETFs veio com a aquisição do iShares (Barclays) em 2009, após a crise de 2008.
  • A ascensão dos ETFs indexados (gestão passiva) transformou a lógica de investimento: estudos mostraram que carteiras de baixo custo que replicam índices tendem a ser tão eficientes ou superiores à gestão ativa no longo prazo — o foco passou da seleção de ações individuais para a alocação de ativos entre diferentes classes, estratégia antes restrita a grandes institucionais.
  • No Brasil, a cultura de ETFs passivos ainda é incipiente, com a maioria dos investidores concentrada em renda fixa local e fundos ativos de taxas elevadas — enquanto nos EUA o modelo já é tão consolidado que gera debate acadêmico sobre distorções de preço em empresas que compõem índices amplamente replicados.

por

Gabriela Lima

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Publicado em

17/7/2026

Tire dúvidas com IA

Existe uma empresa que, com altíssima probabilidade, já tem alguma participação nas companhias que você conhece, usa e admira, independentemente de você já ter ouvido falar nela. Essa empresa não fabrica nada, não presta serviços ao consumidor final e não tem um produto com o seu nome nas prateleiras. Mas ela é, silenciosamente, uma das forças mais influentes do mercado financeiro global.

Esse é o tema do sexto episódio da série Ações Americanas, com Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad, e Danilo Igliori, economista-chefe da Nomad. Neste episódio, eles conversam com Cristiano Castro, diretor de desenvolvimento de negócios da BlackRock no Brasil, sobre a história da maior gestora de ativos do planeta, o papel dos ETFs na democratização dos investimentos e o que tudo isso significa para quem investe do Brasil.

O que é a BlackRock e por que ela é tão relevante

A BlackRock é uma gestora de ativos, ou seja, uma empresa especializada em investir o dinheiro de outras pessoas e instituições, como fundos de pensão, seguradoras, governos e investidores individuais ao redor do mundo.

A BlackRock gere US$ 14 trilhões em ativos. Para colocar esse número em perspectiva: esse volume é maior do que o PIB de praticamente todos os países do mundo, exceto Estados Unidos e China. E ela é a principal acionista de grande parte das empresas que compõem o S&P 500, o principal índice do mercado americano.

Quando uma gestora tem US$ 14 trilhões sob gestão, ela inevitavelmente se torna acionista relevante de centenas de companhias ao mesmo tempo. Isso significa que, quando você investe em um ETF (Exchange Traded Fund) que replica o S&P 500, é muito provável que a BlackRock já esteja do outro lado dessa operação, gerindo parte dos recursos que compõem esse índice.

Como a BlackRock se tornou a maior gestora do mundo

A trajetória da BlackRock até o topo não foi linear. Ela foi construída por decisões estratégicas, aquisições no momento certo e uma capacidade de se adaptar às transformações do mercado.

Cristiano Castro explica que a BlackRock chegou onde está por meio de eventos que ele chama de inorgânicos, ou seja, aquisições que expandiram radicalmente o escopo da empresa. O primeiro foi a compra da Merrill Lynch Investment Management, uma gestora especializada em ações, altamente complementar ao que a BlackRock já fazia em renda fixa.

O segundo, e mais decisivo, veio com a crise de 2008. “Isso trouxe uma oportunidade para entrarmos no mercado de ETFs. Foi quando fizemos a aquisição do Barclays, do iShares. Após a aquisição, fizemos toda a integração em 2009. E aí começa a história da BlackRock dentro do mercado de ETFs", conta Castro.

A aquisição do iShares foi um divisor de águas. O que era uma gestora reconhecida no mercado de renda fixa se transformou na maior plataforma de ETFs do mundo, com uma linha de produtos que abrange praticamente todos os mercados, setores e classes de ativos disponíveis na bolsa americana.

O que é gestão passiva e por que ela ganhou o mundo

Para entender a relevância do iShares e do modelo de ETFs, é preciso entender a diferença entre dois grandes modelos de gestão de investimentos.

Na gestão ativa, um gestor profissional analisa o mercado, seleciona ativos e toma decisões buscando superar algum índice de referência, como o S&P 500. Esse serviço tem um custo mais alto, pois envolve equipes de analistas, pesquisa e monitoramento constante.

Na gestão passiva, o objetivo não é superar o índice, mas replicá-lo com eficiência e baixo custo. Um ETF indexado ao S&P 500, por exemplo, simplesmente compra as ações que compõem esse índice nas mesmas proporções, sem tentar "bater o mercado".

Durante décadas, o modelo ativo dominou. Mas a literatura financeira começou a mostrar algo inconveniente para os gestores ativos: em muitos estudos e períodos analisados, carteiras passivas de baixo custo apresentaram resultados comparáveis ou superiores à gestão ativa.

Castro explica como essa percepção ganhou força entre os investidores institucionais americanos. Segundo ele, dois fatores andaram juntos: a constatação de que carteiras indexadas de baixo custo tendiam a ser mais eficientes no longo prazo, e a compreensão crescente da importância da alocação de ativos como motor de retornos sustentáveis.

"Os investidores institucionais americanos perceberam essas duas coisas, que talvez criando carteiras onde você utilizasse instrumentos eficientes de baixo custo que seguiam os índices, e focar no asset allocation, que essa estratégia seria mais vencedora no longo prazo", resume.

O que é alocação de ativos e por que isso mudou a forma de investir

A alocação de ativos, ou asset allocation, é a estratégia de dividir o patrimônio entre diferentes classes de investimentos, como ações, renda fixa, imóveis e outros ativos, de acordo com os objetivos, o prazo e o perfil de risco de cada investidor.

A ideia central é que a decisão de quanto colocar em cada classe de ativo pode ter mais impacto no resultado final do que a escolha de qual ação específica comprar dentro de cada classe.

Danilo Igliori destaca que os ETFs indexados tornaram essa estratégia acessível para um perfil de investidor que antes ficava de fora. "Com os ETFs de investimento sistemático, ou indexados da BlackRock, a lógica mudou. Agora, o foco está na alocação de ativos. E isso representa uma grande democratização para aqueles investidores que não têm tempo ou conhecimento para selecionar ações de empresas específicas", explica.

Na prática, isso significa que montar uma carteira de investimentos diversificada e eficiente deixou de exigir horas de pesquisa e conhecimento técnico aprofundado. Um investidor pode, com poucos ETFs, ter exposição a centenas de empresas de diferentes setores e países ao mesmo tempo.

ETFs passivos x ETFs ativos: o que mudou

Por muito tempo, o ETF foi sinônimo de gestão passiva. A associação era quase automática: ETF = replicar um índice. Mas esse entendimento mudou.

Castro explica que o ETF passou a ser visto pelo mercado como uma estrutura, uma casca, não como uma estratégia. Uma casca de fácil acesso, escalável e negociável em bolsa. E essa casca pode abrigar tanto uma estratégia passiva quanto uma estratégia de gestão ativa.

A grande diferença em relação aos fundos mútuos, que eram o veículo tradicional para gestão ativa, é a acessibilidade. "A gestão ativa era feita dentro de fundos mútuos durante muito tempo. E os fundos mútuos não eram negociados em bolsa, mas em plataforma, e precisavam ser aprovados pelas instituições para serem acessados. A beleza dos ETFs ativos é que isso tudo está hoje no home broker, dentro de uma plataforma escalável", destaca Castro.

Isso significa que estratégias antes restritas a investidores institucionais ou a quem tinha acesso a plataformas específicas hoje estão disponíveis para qualquer pessoa que tenha uma conta em corretora e acesso à bolsa. Para entender melhor os diferentes tipos disponíveis, vale conhecer o universo dos tipos de ETFs e o funcionamento dos ETFs americanos.

Por que o brasileiro ainda investe pouco em ETFs

No Brasil, a cultura de investimento via ETFs passivos ainda é incipiente. A maior parte dos investidores brasileiros concentra o patrimônio em produtos de renda fixa local ou em fundos de gestão ativa, muitas vezes com taxas elevadas.

Paula Zogbi coloca o contraste em perspectiva. Nos Estados Unidos, a estratégia de investimento via ETFs passivos é tão consolidada que gerou até um debate acadêmico relevante:

"Aqui no Brasil a estratégia de investimento via ETFs passivos não é tão difundida, mas nos Estados Unidos ela é tão forte que gera até uma discussão sobre preços de empresas que fazem parte de índices e de ETFs terem o preço artificialmente inflado", observa Paula.

Esse cenário aponta tanto para o quanto o mercado americano amadureceu em torno desse modelo quanto para o espaço que ainda existe para o investidor brasileiro explorar essa estratégia.

O que o investidor brasileiro pode aprender com tudo isso

A principal lição do episódio não é sobre a BlackRock em si, mas sobre a mudança de mentalidade que ela ajudou a construir no mercado global.

Investir bem não precisa ser sinônimo de escolher ações individualmente, acompanhar balanços trimestrais ou pagar por uma gestão ativa cara. Com ETFs indexados e uma estratégia de alocação de ativos bem definida, é possível construir uma carteira diversificada e alinhada aos seus objetivos de longo prazo.

Castro encerra com um recado direto para o investidor pessoa física. Para ele, o acesso à informação nunca foi tão amplo, e isso cria uma responsabilidade: "Utilizem essas novas ferramentas para tornar o seu portfólio mais adequado aos seus objetivos de longo prazo. E por último, invista em educação financeira. Invista em entender no que você está investindo, onde você está colocando os seus recursos."

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Todos os investimentos envolvem risco, e você pode perder dinheiro. É importante diversificar seus investimentos e considerar seus objetivos financeiros individuais e tolerância ao risco. Os principais riscos para diferentes tipos de investimento incluem:

Ações (Equities): Sujeito a flutuações do mercado; seu valor pode diminuir.

ETFs: Apresentam riscos de mercado semelhantes aos das ações e podem não acompanhar perfeitamente o seu índice. Os ETFs alavancados e inversos podem apresentar riscos mais elevados.

Gabriela Lima

É consultora de investimentos na Nomad Wealth, com passagem por estágio em inteligência de mercado no CEPEA. Cursa Economia na ESALQ-USP e possui a certificação CEA (Certificação de Especialista em Investimentos ANBIMA).

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