Você já se perguntou por que uma ação vale exatamente o que vale na bolsa? É uma dúvida muito comum entre quem está começando a investir no exterior, e a resposta começa bem antes do primeiro pregão de uma empresa.
Para explorar essa lógica, a Nomad foi até a sede da Nasdaq em Nova York gravar a série “Ações Americanas”. E no terceiro episódio, a estrategista-chefe Paula Zogbi e o economista-chefe Danilo Igliori conversaram com Jay Heller, VP e Diretor Global de Mercado de Capitais e IPOs da Nasdaq, sobre os bastidores da precificação de ações no mercado americano.
A resposta curta: o preço de uma ação reflete a expectativa do mercado sobre o futuro de uma empresa, calibrada por um processo rigoroso que começa meses antes de qualquer negociação. A resposta longa é o que vamos explorar a seguir.
O IPO: quando uma empresa decide abrir o capital
O IPO (Initial Public Offering, ou Oferta Pública Inicial) é o momento em que uma empresa deixa o mercado privado e passa a ter suas ações negociadas em bolsa. Mas por que uma empresa tomaria essa decisão?
A resposta envolve estrutura de capital. Paula Zogbi explica as vantagens concretas para quem decide dar esse passo:
"O IPO permite que a empresa ganhe mais liquidez. O custo de capital é menor em relação a outras formas de financiamento e a empresa abre a sua estrutura de capital para potenciais investidores do mundo inteiro. E em troca, a companhia oferece uma parte da sua lucratividade.”
Para Jay Heller, que acompanhou centenas de listagens ao longo de sua carreira na Nasdaq, esse veículo tem um poder que vai além do financeiro. "Essa listagem pública fornece a uma entidade a segurança para fazer o que você quiser. Pode ser para expansão, liquidez global não só para funcionários, para seus primeiros investidores, para potenciais fusões e aquisições", afirma.
Um processo que começa muito antes do pregão
O IPO não começa quando o ticker aparece na tela. O processo pode levar de 6 a 18 meses antes da listagem, envolvendo uma série de etapas que poucos investidores conhecem de perto.
Uma das mais importantes é a entrega do documento S-1 para a SEC (Securities and Exchange Commission), a equivalente americana da CVM brasileira. Paula Zogbi explica que essa exigência tem como objetivo acabar com a assimetria de informações. “Ou seja, os fundadores e os novos acionistas devem ter o mesmo nível de conhecimento sobre aquela companhia antes dela ser listada”, complementa.
O processo também inclui a contratação de bancos subscritores e a produção de relatórios de risco. Antes mesmo de qualquer negociação pública, a empresa percorre roadshows para apresentar sua tese a potenciais investidores institucionais.
Jay Heller destaca que esses meses de preparação são, também, uma oportunidade valiosa de ajuste de rota. "Talvez em 12 meses eu tenha chance de fazer um non-deal roadshow. Eu posso contar minha história, coletar feedback crítico, ver se preciso mudar de posição, ver o que as pessoas podem ter gostado e o que podem não ter gostado", explica.
Formação do livro: como os bancos testam a demanda
Depois das etapas de preparação, os bancos subscritores vão a campo para medir o apetite do mercado por aquela empresa. Esse processo se chama bookbuilding, ou formação do livro.
Na prática, os bancos abordam investidores institucionais, apresentam diferentes faixas de preço e registram a demanda para cada cenário. O objetivo, segundo Danilo Igliori, é encontrar um equilíbrio entre o valuation pretendido e a real demanda pelo risco e pelo setor, o que vai ajudar na formação dos preços das ações que acontecem na véspera da listagem da empresa.
Ou seja: o preço inicial de uma ação não é um número arbitrário. É o resultado de um processo coletivo de descoberta sobre quanto o mercado está disposto a pagar.
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Por que a escolha da bolsa influencia o preço das ações
A decisão de onde listar as ações também carrega um peso estratégico. Ela sinaliza para o mercado o nível de governança e transparência da companhia, e isso tem impacto direto sobre a percepção de valor. Paula Zogbi é clara a respeito: "A vitrine onde uma companhia lista as suas ações vai ajudar a definir o nível de procura por ela e, consequentemente, o seu custo de capital."
A Nasdaq, por exemplo, é reconhecida por seus padrões rigorosos de compliance e governança corporativa. Jay Heller resume essa percepção de forma direta: "Fazer parte da Nasdaq realmente é o padrão ouro quando você pensa na formação de capital aqui, pelo menos nos EUA."
Há também uma diferença setorial relevante para o investidor brasileiro. Danilo Igliori aponta que, enquanto a B3 se concentra em setores mais tradicionais, como commodities, recursos naturais e bancos, a Nasdaq explora setores inovadores, incluindo as grandes empresas de tecnologia.
O volume transacionado diariamente também é de outra magnitude. Paula Zogbi coloca em perspectiva: "O volume transacionado aqui pode ser 100 vezes maior todos os dias do que o volume transacionado na B3." Para o investidor, mais liquidez significa maior facilidade para comprar e vender ativos, com menor risco de ficar preso em uma posição difícil de desfazer.
O que move o preço das ações depois do IPO
A listagem é o início da jornada. Depois que as ações passam a ser negociadas, o que define seu preço dia a dia é a relação entre o que a empresa prometeu entregar e o que efetivamente entrega.
Jay Heller descreve essa dinâmica com precisão: "Independentemente do seu setor, se você disser a um investidor ou investidores que é 'isso que vamos fazer', e é assim que vamos performar, e você tiver um desempenho abaixo do esperado e entregar abaixo do esperado, infelizmente pode ser punido. Mas por outro lado, se você fizer tudo o que disse e entregar mais do que o esperado você vai ser recompensado pelo grande sucesso."
Essa lógica explica por que ações de empresas com resultados sólidos tendem a se valorizar ao longo do tempo, enquanto companhias que frustram expectativas sofrem quedas mesmo quando seus números absolutos parecem razoáveis. O mercado precifica futuro, não passado.
Para quem acompanha o mercado de ações americano, compreender esse mecanismo é fundamental. Saber que o preço de uma ação reflete expectativas ajuda a avaliar quando um ativo está caro, barato ou simplesmente bem precificado.
O que isso significa para o investidor brasileiro
Toda essa estrutura, do IPO ao bookbuilding, da escolha da bolsa à gestão de expectativas, opera em um mercado que concentra quase metade de todo o capital global investido em ações. Para o investidor brasileiro, isso representa uma oportunidade concreta de diversificar a carteira com exposição a setores e empresas que não existem na B3.
Jay Heller encerra com uma perspectiva otimista sobre o momento atual: "Ainda acredito que será um 2026 empolgante entrando em 2027." A ressalva, no entanto, é válida para qualquer investidor: "Cada um precisa fazer sua própria diligência e entender que, se está destinando capital, você sempre deve fazer sua lição de casa."
Acessar esse mercado, que até pouco tempo atrás parecia distante para a maioria dos brasileiros, ficou muito mais simples. Com a Conta Investimento Nomad, é possível investir em ações americanas diretamente, com seus ativos protegidos pelo SIPC (Securities Investor Protection Corporation) em até US$ 500 mil em caso de falência da corretora custodiante.
Entender o mercado é o primeiro passo para investir melhor
Precificar ações é um processo que envolve meses de preparação, análise de demanda, escolha estratégica de bolsa e, depois da listagem, uma dinâmica contínua de expectativas versus resultados. Cada etapa contribui para o número que você vê na tela quando abre o aplicativo.
Esta é a série “Ações Americanas”, uma produção original da Nomad gravada na sede da Nasdaq em Nova York. Nos próximos episódios, Paula Zogbi e Danilo Igliori continuam explorando como navegar pelo mercado americano de ações.
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