Ações Americanas #9: Como o mercado de capitais e a Nomad te ajudam a planejar um futuro global

Paula Zogbi e Danilo Igliori encerram a série Ações Americanas com uma aula sobre a história do mercado de capitais e o que ela significa para o investidor brasileiro.

Resumo
  • O mercado de capitais tem origem em 1602, com a VOC holandesa — primeira empresa de capital aberto da história, que chegou a valer o equivalente a quase US$ 8 trilhões em valores atuais — e chegou aos EUA pelo Buttonwood Agreement de 1792, ato fundador da NYSE; a mesma lógica de mobilizar capital de muitos para financiar grandes empreendimentos atravessa quatro séculos até o mercado atual.
  • A série Ações Americanas revelou a engrenagem invisível por trás de cada ativo: anos de trabalho antes de uma listagem (Citi), infraestrutura que sustenta bilhões de negociações diárias (NYSE/Nasdaq), a revolução dos ETFs passivos e temáticos (BlackRock e Global X) e o que muda para uma empresa depois do IPO (Spotify) — complexidade que raramente aparece para o investidor comum.
  • A grande transformação dos últimos anos é o acesso: o que por séculos esteve reservado a poucos investidores institucionais está hoje disponível para qualquer brasileiro com um app — e as próximas fronteiras já aparecem no horizonte, com tokenização de ativos, extensão dos horários de negociação e acesso global irrestrito a ativos de qualquer país.

por

Gabriela Lima

Tempo de leitura

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Publicado em

24/7/2026

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Depois de semanas gravando em alguns dos endereços mais icônicos do mercado financeiro global, Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad, e Danilo Igliori, economista-chefe da Nomad voltam a São Paulo para o nono e último episódio da série Ações Americanas. Eles passaram pela NYSE, Nasdaq, Citi, BlackRock, Global X e Spotify. Agora é hora de respirar, olhar para trás e entender o que toda aquela engrenagem representa de verdade.

A conclusão a que chegam é surpreendente pela sua simplicidade: o mercado de capitais, que nasceu há mais de quatro séculos como instrumento de poucos, tornou-se o maior mecanismo de democratização do acesso a grandes empresas que o mundo já criou. E o investidor brasileiro, pela primeira vez na história, tem acesso real a esse sistema.

Onde tudo começou: a primeira empresa de capital aberto da história

Para entender Wall Street, é preciso voltar à Holanda do século XVII. Em 1602, surgiu a VOC, a Companhia das Índias Orientais Holandesas, considerada a primeira empresa de capital aberto da história. Foi a primeira vez que investidores podiam comprar ações listadas em bolsa sem poder devolvê-las à própria companhia. Nascia ali o mercado secundário, a base de toda a estrutura que existe até hoje.

Paula Zogbi coloca o tamanho daquele fenômeno em perspectiva: "A VOC foi a primeira empresa de capital aberto. Foi a primeira vez que os investidores podiam comprar as ações listadas na bolsa e eles não poderiam devolver aquele pedaço de empresa para a própria companhia. Foi o começo do mercado secundário e essa é a origem, lá atrás, em 1602, da bolsa."

O que torna essa história ainda mais impressionante é a escala. No auge, a VOC chegou a valer, corrigido pela inflação, quase US$ 8 trilhões em valores monetários de hoje. "Que é mais do que o valor de mercado de algumas das maiores empresas do mundo atualmente. Então realmente era a maior empresa do planeta e foi isso que foi exportado para Nova York", complementa Danilo Igliori.

De Nova Amsterdã a Wall Street: como o mercado de capitais chegou aos EUA

A cidade que hoje sedia o maior mercado de ações do mundo já se chamou Nova Amsterdã, graças à sua colonização. E a própria Wall Street carrega no nome a memória de um muro que dividia a ponta sul da ilha de Manhattan.

Foi nesse contexto que nasceu o Buttonwood Agreement, em 1792, um acordo firmado embaixo de uma árvore por corretores que decidiram organizar as negociações de títulos em Nova York. Esse documento é considerado o ato de fundação daquilo que viria a se tornar a NYSE, a maior bolsa de valores do mundo.

O paralelo histórico que Paula e Danilo traçam revela uma continuidade fascinante. A VOC financiava expedições marítimas. A bolsa de Nova York nasceu para financiar ferrovias. Em ambos os casos, o capital de muitos foi mobilizado para viabilizar a movimentação, literal e metafórica, de recursos e pessoas pelo mundo.

"No fim das contas, essa movimentação metafórica de hoje tem tudo a ver com a forma como as bolsas foram criadas para levar e trazer mercadorias e pessoas de lá pra cá", observa Paula.

Danilo completa com uma síntese que atravessa séculos: "No fim das contas, é o capital indo de mão em mão para financiar negócios, como era lá em 1600."

O que a série revelou sobre o mercado de capitais por dentro

Ao longo dos episódios anteriores, a série mostrou algo que raramente aparece para o investidor comum: a engrenagem por trás de cada ativo que aparece disponível para compra em uma corretora de investimentos.

Na visita ao Citi, ficou evidente o quanto trabalho e tempo existem antes de uma empresa estrear na bolsa, desde a preparação da tese de investimento até a estruturação da oferta e o roadshow com investidores. Na NYSE e na Nasdaq, o foco foi na infraestrutura e na tecnologia que sustentam bilhões de negociações diárias.

Já na BlackRock, a história foi a dos ETFs e da gestão passiva. Na Global X, os ETFs temáticos e a estratégia core-satellite. No Spotify, a perspectiva de uma empresa que não apenas abriu capital nos EUA como escolheu fazer dupla listagem.

Danilo resume o que une todos esses episódios:

"Na conversa com o Citi, por exemplo, a gente viu quanta coisa tem que acontecer para chegar a ter uma ação listada: desde toda uma adequação com estruturas regulatórias até uma verdadeira transformação fundamental na governança da empresa. Não é uma coisa trivial. Parecia que aquele precinho piscando na tela demanda uma movimentação de muita gente durante muito tempo."

Paula acrescenta que essa complexidade se estende para além da listagem. Uma empresa que abre capital passa a depender de toda uma rede de agentes, das próprias bolsas às gestoras de fundos, para que suas ações tenham liquidez e continuem sendo negociadas com eficiência.

A revolução dos ETFs: inovação dentro do mercado mais tradicional do mundo

Um dos capítulos mais reveladores da série foi o da BlackRock, que mostrou como um instrumento relativamente novo, os ETFs, transformou a forma como o mundo investe em poucas décadas.

As ações existem há séculos. Os ETFs têm algumas poucas décadas. Mas em tempo recorde, tornaram-se um dos produtos mais relevantes do mercado de capitais americano, com trilhões de dólares em ativos sob gestão e uma versatilidade que vai de ETFs de índices amplos a estratégias temáticas específicas como inteligência artificial, energia limpa e tecnologia de defesa.

Danilo destaca o que torna essa história tão interessante: "Foi uma sacada muito boa você criar algo que é fácil, barato e que te permite abraçar uma variedade imensa de possibilidades de investimento, desde os famosos índices, ir lá e comprar um ETF de S&P 500, até estratégias temáticas, o que também ficou muito claro lá na Global X."

Para Paula, o futuro das carteiras da maioria dos investidores aponta nessa direção. Seguir o beta do mercado com uma carteira equilibrada, sem grandes oscilações e sem a necessidade constante de fazer stock picking, é uma estratégia cada vez mais acessível e cada vez mais eficiente para quem pensa no longo prazo.

Da concentração à democratização: o que o mercado de capitais representa hoje

Há uma ironia bonita na história do mercado de capitais. O que nasceu como instrumento de concentração de riqueza, viabilizando expedições coloniais financiadas por poucos investidores privilegiados, tornou-se hoje o principal mecanismo pelo qual qualquer pessoa pode se tornar sócia das maiores empresas do planeta.

Danilo articula essa virada com precisão: "Uma bolsa de valores, no fundo, é o veículo pra dar acesso pro mundo inteiro às grandes realizações empresariais do planeta. É fascinante você imaginar que algo que antes era símbolo da concentração do capital e dos recursos, hoje é o contrário."

Na prática, isso significa que o mesmo investidor que alguns anos atrás dependia de fundos caros e inacessíveis para ter exposição ao mercado americano pode hoje, com alguns cliques, se tornar acionista de Nvidia, Microsoft, Apple, Amazon ou qualquer uma das mais de três mil empresas listadas nas bolsas americanas. Entender como comprar ações no mercado americano nunca foi tão simples.

O que vem pela frente: tokenização, horários estendidos e a fronteira tecnológica

A série também captou sinais do que está por vir. Ao longo das gravações, alguns temas apareceram repetidamente nas conversas com executivos e especialistas como indicadores do próximo ciclo de transformação do mercado financeiro.

A tokenização de ativos, que é a representação digital de ativos reais em blockchain, surgiu como uma das fronteiras mais comentadas. A extensão dos horários de negociação, que já começa a ser implementada por algumas bolsas, aponta para um mercado que caminha para funcionar praticamente 24 horas. E o acesso global irrestrito a ativos de qualquer país, a partir de qualquer lugar do planeta, é uma realidade que avança de forma acelerada.

Danilo conecta essa inovação tecnológica com a tese de investimento mais ampla: "Isso envolve não só as teses de investimento que estão movendo o mundo, como inteligência artificial, mas também o mercado em si, que está criando novas coisas. Tem muita tecnologia sendo criada nesse mundo e isso tá acessível para quem quiser hoje em dia.

O que o investidor brasileiro leva dessa série

A bolsa de valores americana sempre existiu. O que mudou, nos últimos anos, é o acesso do investidor brasileiro a ela.

Essa é a grande conclusão que Paula e Danilo trazem de volta na bagagem. Não se trata apenas de ter um app com bom design ou de poder comprar uma fração de ação da Apple. Trata-se de um passo histórico: a possibilidade real de um investidor brasileiro participar do mesmo mercado que, por séculos, esteve reservado a poucos.

"A moral da história de tudo que a gente levantou nessas várias conversas é que a gente aqui no Brasil está finalmente conseguindo dar um passo muito relevante que é ter acesso, ou dar acesso, para investidores de todos os tamanhos a esse mundo de oportunidades", resume Danilo.

Para quem quer dar esse passo com consciência, investir no exterior começa com entender o que existe por trás de cada ativo disponível na tela. E é exatamente isso que a série Ações Americanas se propôs a mostrar.

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Gabriela Lima

É consultora de investimentos na Nomad Wealth, com passagem por estágio em inteligência de mercado no CEPEA. Cursa Economia na ESALQ-USP e possui a certificação CEA (Certificação de Especialista em Investimentos ANBIMA).

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