O indicador de Halloween é um padrão histórico: nos períodos analisados, a bolsa rendeu, em média, mais de novembro a abril do que de maio a outubro. O nome vem da data em que, pela regra clássica, o investidor voltaria ao mercado: 31 de outubro, o Dia das Bruxas.
Mas atenção: é uma tendência de média, e não uma previsão nem uma promessa. Em muitos anos, o resultado foi diferente do padrão. Neste guia, você vê de onde vem o indicador, o que dizem os estudos, incluindo pesquisas recentes, os números do S&P 500, as críticas e se o padrão ainda vale hoje.
O tema costuma aparecer no noticiário financeiro no fim de outubro. Vale entender o que ele significa e o que ele não significa.
O que é o indicador de Halloween?
O indicador de Halloween, também chamado de "Sell in May and go away" (em português, "venda em maio e vá embora"), divide o ano da bolsa em duas metades. A primeira, de novembro a abril, é chamada de "inverno" em referência ao hemisfério norte. A segunda, de maio a outubro, é o "verão".
A tese é que, historicamente, a primeira metade concentra a maior parte dos ganhos, enquanto a segunda rende menos. A regra clássica, descrita aqui apenas para explicar o conceito e não como orientação, seria reduzir a exposição às ações em maio e voltar em 31 de outubro.
De onde vem o nome: Halloween e "Sell in May"
A origem é um ditado do mercado britânico: "Sell in May, go away, come back on St. Leger's Day". A St. Leger é uma corrida de cavalos disputada em meados de setembro, que marcava a volta dos financistas de Londres das férias de verão.
O nome "indicador de Halloween" é a versão que antecipa a volta para o fim de outubro. Daí a referência ao Dia das Bruxas, em 31 de outubro, como a data de retorno ao mercado.
Quando surgiu a tese dos seis melhores meses
A versão moderna da ideia tem nome: "Best Six Months", ou os seis melhores meses. Ela foi popularizada pelo Stock Trader's Almanac, publicação criada por Yale Hirsch. A tese é que a maior parte dos ganhos do mercado se concentra de novembro a abril.
O padrão costuma ser analisado em índices americanos, como o Dow Jones e o S&P 500, que reúne 500 grandes empresas americanas e é uma das principais referências da bolsa dos Estados Unidos.
O que dizem os estudos sobre o indicador de Halloween
Desde os anos 2000, pesquisadores testam o padrão em muitos países. Vale separar o estudo pioneiro, as pesquisas mais recentes e os trabalhos que apontam limites.
O estudo pioneiro de 2002
O trabalho que deu base acadêmica ao tema foi publicado por Sven Bouman e Ben Jacobsen, “The Halloween Indicator, ‘Sell in May and Go Away’: Another Puzzle”, na American Economic Review, em 2002. Eles analisaram dados de 37 países, até 1998, e encontraram o padrão em 36 deles, com força especial na Europa. Os autores também acharam sinais da sazonalidade no mercado britânico desde 1694.
É um marco, mas usa dados antigos. Por isso, vale olhar o que veio depois.
Estudos recentes: o que mostram Zhang e Jacobsen (2021) e Hsu e Lien (2025)
Dois trabalhos mais novos ajudam a atualizar o quadro:
- Zhang e Jacobsen (2021), Journal of International Money and Finance: no artigo “The Halloween indicator, ‘Sell in May and Go Away’: Everywhere and all the time”, os autores usaram todos os dados históricos disponíveis de índices de bolsa do mundo, com quase 63 mil observações, para responder aos céticos. Segundo o resumo do estudo, o efeito parece muito robusto: os retornos de novembro a abril foram, em média, cerca de 4% maiores que os de maio a outubro. Ainda segundo o resumo, o retorno acima de uma taxa de referência considerada livre de risco, como a de títulos públicos de curto prazo dos EUA (o chamado excesso de retorno), pareceu negativo no verão, em torno de 1% negativo. Essa taxa é uma referência teórica, já que todo investimento envolve algum nível de risco;
- Hsu e Lien (2025), Pacific-Basin Finance Journal: no artigo “To outperform: Sell-in-May enhanced with bond investments”, a pesquisa mais recente usou ETFs de ações globais ao longo de duas décadas e confirmou o efeito de inverno nas ações. Em ETFs de títulos do Tesouro, não houve sazonalidade significativa. Os autores também fizeram um teste com dados passados, o chamado backtest, de uma estratégia hipotética que combinava ações e títulos. Esse tipo de teste não indica desempenho futuro e não considera necessariamente todos os custos e impostos.
Um alerta: o primeiro estudo usa séries muito longas, algumas de séculos atrás, e o segundo inclui um backtest. Ambos descrevem o que aconteceu, e não o que vai acontecer.
Os números do S&P 500 desde 1945
No S&P 500, a diferença aparece nas médias. Segundo a CFRA, que acompanha estatísticas do mercado americano, desde 1945 o índice subiu em média cerca de 6,8% de novembro a abril, contra cerca de 1,7% de maio a outubro, em variação de preço (fonte: CFRA, levantamento divulgado em outubro de 2021 e reportado na matéria “Get Ready for the Year’s Best Period: November Through April”, da Chief Investment Officer, de 27 de outubro de 2021, com dados de 1945 a 2021).
Esses números são médias históricas, calculadas até 2021, e variam conforme a fonte e o período analisado. Uma média esconde diferenças grandes de um ano para o outro: houve anos em que o verão foi forte e anos em que foi fraco.
Os limites: estudos que apontam enfraquecimento do padrão
Nem todos os trabalhos concordam. Algumas pesquisas mostram que o efeito perdeu força:
- Um estudo de 2015 de Dichtl e Drobetz, “Sell in May and Go Away: Still good advice for investors?”, publicado na International Review of Financial Analysis, considerou apenas os períodos em que havia instrumentos para aplicar a estratégia e o que veio depois da publicação de 2002. Concluiu que o efeito enfraqueceu e, em alguns mercados, até desapareceu;
- Um trabalho de 2023 de Lobão e Costa, “The Adaptive Dynamics of the Halloween Effect: Evidence from a 120-Year Sample from a Small European Market”, publicado no International Journal of Financial Studies, analisou cerca de 120 anos de bolsa portuguesa. O padrão existiu nas primeiras décadas do século XX, sumiu por 60 anos e reapareceu no início do século XXI, mas, nas duas primeiras décadas deste século, parece refletir apenas o retorno de janeiro.
Os números recentes também mostram resultados bem diferentes da média: em 2024 e 2025, o S&P 500 teve altas bem acima da média histórica entre maio e outubro, como você vê na próxima seção.
Por que o padrão pode existir (e o que os críticos dizem)
Ninguém tem uma explicação definitiva. Uma hipótese discutida indica que a origem do ditado liga o padrão às férias dos financistas. Mas pesquisas sugerem que as férias explicam o fenômeno só em parte.
Há também críticas. Alguns pesquisadores argumentaram que eventos extremos, como as quedas de outubro de 1987 e de agosto de 1998, explicavam parte do resultado. Trabalhos posteriores contestaram essa leitura, e o debate segue aberto.
O indicador de Halloween ainda vale hoje?
Os dados são mistos, e é por isso que a pergunta não tem resposta única. De um lado, o estudo de 2025 com ETFs e o estudo de 2021 mostram que o padrão apareceu nas décadas analisadas. De outro, vários trabalhos apontam enfraquecimento, e em alguns anos recentes o período de maio a outubro teve altas bem acima da média histórica.
Do fim de abril ao fim de outubro de 2024, o S&P 500 subiu cerca de 13%, e na mesma janela de 2025 avançou cerca de 23%, num período de bull market. Os dois números são variações de preço, calculadas a partir de dados da S&P Dow Jones Indices (relatórios U.S. Equities Market Attributes de maio e de outubro de 2024 e de outubro de 2025). Em 2022, por outro lado, a mesma janela terminou em queda, de cerca de 6% (fonte: S&P Dow Jones Indices, relatórios U.S. Equities Market Attributes de abril e de outubro de 2022). Ou seja, uma média de décadas não diz o que acontecerá em um ano específico.
Lembre-se: rentabilidade passada não é garantia de resultados futuros.
Os riscos de seguir o indicador de Halloween
Entender o padrão é diferente de usá-lo como estratégia. Entre os riscos de tentar acertar o momento do mercado:
- Perder os melhores dias: as maiores altas do mercado podem surgir em períodos de volatilidade, e é difícil prever quando vão acontecer. Quem sai do mercado pode ficar de fora desses movimentos;
- Custos e impostos: entrar e sair da bolsa gera custos de negociação e, dependendo do caso, impostos, que podem reduzir o resultado;
- Limites dos testes: muitos estudos usam índices e backtests, que nem sempre incluem dividendos, custos e impostos;
- Dificuldade de acertar o momento: o padrão é de médias de índices amplos. Ações individuais podem se comportar de forma muito diferente;
- Volatilidade: o mercado oscila, e nenhum calendário elimina isso. Para entender melhor, veja o que é volatilidade e como lidar com a volatilidade nos investimentos.
Existe uma melhor época para investir na bolsa?
Não existe uma época garantida. A sazonalidade é um padrão estatístico, e não uma previsão. Em vez de focar em uma data, vale considerar outros fatores: o objetivo do investimento, o prazo e a tolerância a risco.
Se quiser entender melhor como funciona o ambiente de renda variável e o mercado de ações, vale ler os guias. Quem quer conhecer o cenário dos EUA pode começar por como investir na bolsa americana.
Vale ressaltar que este conteúdo não indica o momento de comprar ou vender nenhum ativo, servindo apenas para fins educativos.
O que considerar antes de tomar decisões com base no calendário
Antes de qualquer decisão baseada em calendário, vale refletir sobre alguns pontos:
- Seu perfil de investidor: quanto risco você suporta. Descubra o seu no guia sobre perfil de investidor;
- Seu horizonte de tempo: quanto tempo você pretende manter o investimento;
- Diversificação: distribuir o dinheiro entre ativos diferentes pode reduzir a dependência de um único cenário. Veja como diversificar investimentos e entenda a alocação de ativos;
- Como o mercado é acompanhado: para entender melhor o índice e os instrumentos usados para acompanhá-lo, leia sobre o S&P 500 e sobre os ETFs americanos.
Em caso de dúvida, procure orientação profissional qualificada. Este conteúdo é educacional.
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