Após o forte rali no ano passado, os metais preciosos vêm sofrendo em 2026. O ouro desvalorizou 16% desde o topo em janeiro, embora ainda apresente valorização de 4% neste ano. Em momentos como esse, é importante compreender o movimento, mas, principalmente, se os fundamentos do ativo mudaram, para saber como se posicionar.
O que explica o movimento dos últimos meses?
- Demanda por joalheria em queda forte: o principal motor de demanda da commodity vem diminuindo o consumo, em meio ao forte aumento de preços e ao ambiente econômico incerto. Em 2025, a demanda já havia caído 18% em relação ao ano anterior e, neste primeiro trimestre de 2026, caiu mais 23%. Com os outros componentes da demanda quase inalterados, ao contrário do que ocorreu em 2025 - com a alta forte do componente Investimento — a demanda geral por ouro retraiu quase 10% no 1T26 em relação ao mesmo período do ano passado;

- Aumento da volatilidade: neste ano o ouro apresentou um aumento notável de volatilidade, em meio ao desmonte de posições alavancadas. Ao apresentar variações superiores a 10% ao dia, a sua atratividade como ativo de proteção diminui, se aproximando da volatilidade de ativos de risco, como criptomoedas. Isso explica a queda de 5% a/a da demanda como investimento no 1T26, embora o seu peso seja muito menor na demanda do que a do segmento de joias.

O que esperar?
Em relação aos fundamentos, conforme destacamos no nosso último relatório de metais, o ouro vinha sendo impulsionado por uma combinação de enfraquecimento do dólar, aumento dos riscos fiscais nos EUA e conflitos geopolíticos e tarifários. Investidores institucionais e de varejo buscaram diversificar suas posições e o ouro, que historicamente cumpriu papel de ativo de proteção, ganhou força. Dois catalisadores cruciais neste processo permanecem:
Treasuries mais correlacionadas com ações
Um dos pilares de uma carteira balanceada é ser composta por ativos pouco correlacionados — ou seja, que não se movem na mesma direção, movidos por gatilhos e teses com comportamento próprio. A descorrelação, além de trazer tranquilidade ao investidor, pode melhorar o risco/retorno do portfólio, diminuindo o risco específico e amplificando o retorno potencial.
Tradicionalmente, a renda fixa americana cumpriu papel relevante com elemento de descorrelação, dado que, quando a atividade econômica se enfraquecia (e os índices acionários derretiam), os títulos de renda fixa valorizavam, contrabalanceando a carteira.
Isso mudou desde a pandemia, com o aumento da duration dos índices de renda fixa americanos neste contexto de enfraquecimento do dólar se traduzindo em uma correlação positiva com equities, e conforme a pressão inflacionária se tornou um dos principais fatores de volatilidade do mercado. Ou seja: ao mesmo tempo que as ações caíam, as posições em Treasuries também caíam, perdendo essa relevante característica defensiva.
Nesse contexto, o ouro se tornou um dos principais substitutos, em especial nos últimos 3 anos, não só exibindo performance notável, mas, principalmente, se comportando de maneira descorrelacionada às bolsas. Nota-se esse comportamento no gráfico, com o aumento substancial nos últimos anos da demanda pelo metal como investimento, seja via ETFs ou fisicamente.

Demanda de bancos centrais
Um movimento que se fortaleceu em 2022, com o início da Guerra da Ucrânia e o congelamento de ativos russos em dólares, foi a diversificação de reservas dos bancos centrais, diminuindo suas posições em dólares (e Treasuries), substituindo-as por ouro.
Esse comportamento não é transitório. Em pesquisa do World Gold Council, 76% dos bancos centrais disseram esperar aumento das posições em ouro nas reservas nos próximos 5 anos, e quase a mesma porcentagem previram diminuição das participações em dólar.

Os fundamentos do ouro se mantiveram. A demanda como investimento segue firme, bancos centrais seguem aumentando exposição e a retração vista no segmento de joalheria tem características cíclicas: o preço subiu rápido, o ambiente econômico não atua a favor do consumo discricionário e o mercado leva tempo para se adaptar. O que não se altera há décadas é a percepção de que o metal é um refúgio em meio às incertezas.





