Terras raras: o que são e como influenciam a relação EUA-China

por

Luca Girardi

Paula Zogbi

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Publicado em

14/11/2025

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Os metais de terras raras protagonizaram negociações e debates relacionados à disputa comercial entre EUA e China. Mas afinal, o que são esses elementos?

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“Terras raras” é um termo utilizado em referência a 17 elementos químicos: o grupo dos lantanídeos da tabela periódica, que compreende 15 elementos, além do ítrio e escândio, que possuem propriedades magnéticas, luminescentes e catalíticas únicas, essenciais para setores de alta tecnologia. 

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Esses elementos em geral são divididos entre dois grupos, cujos principais representantes e características são:

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  • Terras Raras Leves (LREE): elementos muito mais abundantes e com custo e complexidade de produção e beneficiamento inferiores. São comumente encontrados sob a forma de rochas de Bastanisita e Monazita. Os principais elementos são: Neodímio (Nd), Praseodímio (Pr), Lantânio (La) e Cério (Ce);
  • Terras Raras Pesadas (HREE): elementos muito escassos, extraídos geralmente como subprodutos de outros e possuindo alto custo de beneficiamento e produção. São fundamentais por serem utilizados em conjunto das LREE. Os principais elementos são: Disprósio (Dy), Térbio (Tb) e o Ítrio (Y).

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Demanda e usos

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Metais de terras raras são usados em uma ampla gama de indústrias, desde veículos elétricos e geradores eólicos até smartphones e sistemas militares avançados. 

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A atual tese de eletrificação e energias verdes aumentou em muito a demanda por terras raras, que são essenciais para motores e geradores elétricos. O uso militar também é amplo, passando por radares, sonares, mísseis e até pás de turbinas. Sem falar no uso em telas de smartphones, fibra óptica e em outras aplicações mais usuais como contraste para exames de ressonância magnética e catalisadores industriais.

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Boa parte das aplicações vêm do uso  de super-imãs, que dependem das terras raras pesadas, adicionadas aos ímãs de neodímio tradicionais, alterando a estrutura molecular, conferindo-lhes maior resistência à temperatura e à pressão.

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Do ponto de vista da demanda, a perspectiva é a de um forte aumento impulsionado pela transição às energias verdes. A Agência Internacional de Energia projeta aumento de três a sete vezes da demanda entre 2021 e 2040, enquanto a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), vinculada ao Ministério de Minas e Energia, projeta um crescimento de 500% em relação ao consumo atual até 2034. 

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Cenário da oferta: a dominância chinesa

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Enquanto todo o planeta demanda terras raras, em especial nações mais desenvolvidas que estão na vanguarda do uso de novas tecnologias, a oferta é especialmente centralizada e controlada por uma só nação: a China. 

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Desde os anos 1970, Deng Xiaoping, o líder chinês à época, efetuou um planejamento de longo prazo para aproveitar as vastas jazidas desses elementos que o país possuía. Em suas minas ricas em minério de ferro próximas da Mongólia, o país começou a explorar as terras raras leves, mais fáceis de extrair e separar em quantidades relevantes, em especial o cério, utilizado para melhorar a qualidade das ligas de ferro chinês.

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Com custos mais baixos, desenvolvendo uma tecnologia de refino doméstica mais barata, e, principalmente, uma legislação ambiental permissiva, as refinarias do país sobrepujaram as ocidentais, com o país monopolizando o refino de LREE e, posteriormente, de HREE. Em 1992, Deng proferiu a famosa frase “O Oriente Médio tem petróleo, a China tem terras raras”.

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O país asiático detém 40% das reservas  e quase 70% da mineração total mundial. Os EUA são o segundo maior produtor. 

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O Brasil também tem papel importante, abrigando a terceira maior reserva de terras raras, quase 20% do total global. Mas isso não se converte em produção. Há  apenas uma mineradora em atividade no país, em Goiás, que começou a operar em 2024. Essa mina em território nacional é a única produtora de HREE fora da China, mas o país somente faz a extração mineral, exportando o concentrado aos chineses, que lá fazem o refino.

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Fonte: U.S. Geological Survey. Data de consulta: 12/11/25.
Fonte: U.S. Geological Survey. Data de consulta: 12/11/25.

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Como funcionam a extração e a produção

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Estes minerais são subprodutos da mineração de outros elementos. Para a produção de 1kg de terras raras, a depender da sua concentração, é necessária a extração de uma tonelada de minério. Logo, um dos principais entraves para a produção é o processo de licenciamento ambiental, dado o possível impacto de sua extração sem controle.

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Nas etapas de refino/beneficiamento e produção final, o domínio chinês beira o monopólio, com concentração de cerca de 90% da capacidade global de refino e separação de terras raras e um nível muito semelhante na produção final. Essa dominância é resultado da estratégia que verticalizou toda a cadeia de valor ao longo de mais de 50 anos, e sua reversão seria lenta e cara. 

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Fora do domínio chinês, destaca-se a operação da Lynas Rare Earths, maior produtora verticalizada fora da China, proveniente da Austrália, que minera o concentrado na Oceania e o envia para sua planta de refino na Malásia, com forte apoio dos EUA. Além dela, a MP Materials, nos EUA, construiu sua própria infraestrutura de refino e produção de ímãs localmente, após historicamente exportar concentrado aos chineses. 

Fonte: ING Research. Data de consulta: 12/11/25.

Outra fonte geralmente relevante de oferta de metais é a reciclagem. Com terras raras, entretanto, é uma fonte insignificante, com uma taxa de reciclagem em produtos finais inferior a 1%. As quantidades em geral utilizadas em produtos finais  são muito baixas e o custo de separação historicamente tornou a reciclagem um meio inviável em comparação aos preços de terras raras novas vindas da China. Aos poucos, essa realidade tende também a  mudar, com novas tecnologias como a biolixiviação, que usa bactérias para extrair os metais do lixo eletrônico, com altas taxas de recuperação. 

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Ao mesmo tempo, fabricantes vêm tentando buscar alternativas ao uso de terras raras, com exemplos como carros elétricos da Renault e da BMW utilizando cobre ao invés desses elementos. Além disso, algumas iniciativas vêm tentando priorizar fontes recicladas, como a Apple, que desde o iPhone 12, utiliza 100% de fontes recicladas para os seus imãs. 

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Desde a pandemia, com uma  a quebra das cadeias produtivas globais, teses de recentralização da cadeia produtiva de produtos críticos voltaram ao radar, com países questionando a dependência de parceiros em componentes estratégicos. Além dos semicondutores, as terras raras estão no cerne dessa questão pela sua importância crítica mundial e a dominância chinesa. Com o início de operações de refino na Malásia e, mais recentemente, nos EUA, aos poucos o mundo busca diversificar o fornecimento no médio e longo prazo, embora esse processo seja lento. Segundo projeções, mesmo que as refinarias em outros países entrem em operação como planejado, até 2030 o resto do mundo produzirá cerca de metade do que a China produziu em 2024.

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Para investir em terras raras, principalmente pela dominância de companhias chinesas não-listadas nos EUA, os ETFs são um veículo simples, com diversificação geográfica e exposição a companhias de diversos ciclos da cadeia produtiva. O principal representante, em ativos sob gestão, é o REMX (VanEck Rare Earth and Strategic Metals ETF), da VanEck. Vale ressaltar que o ETF não investe somente em companhias envolvidas com terras raras, incluindo companhias da cadeia do lítio com peso relevante.

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A composição do REMX é de cerca de 30% de companhias chinesas, com o restante sediadas em países como Austrália e EUA. As duas principais companhias envolvidas no refino de terras raras fora da China, Lynas Rare Earths (LYSDY) e MP Materials (MP), são componentes relevantes no fundo, cerca de 12% do total. Caso o investidor queira investir diretamente nelas, para diminuir a exposição em lítio, também é possível, dado que a australiana possui ADR nos EUA e a MP Materials é estadunidense.

Luca Girardi

Graduado em Economia no Ibmec-SP, com experiência em análise macroeconômica na Wagner Investimentos e em FP&A na Sugoi. Possui a certificação CGA (Certificação de Gestores ANBIMA) e CNPI pela Apimec.

Paula Zogbi

Estrategista-chefe da Nomad, tem mais de 10 anos de experiência no mercado financeiro, foi head de conteúdo na XP, analista na Rico e jornalista na InfoMoney e EXAME. É graduada em jornalismo pela USP e tem certificação CNPI pela Apimec.

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