
Em momentos de guerra, como o atual, com o mercado tomado por incertezas e volatilidade, é natural que o investidor sinta um “frio na barriga”. Em termos de alocação, uma carteira bem diversificada e com ativos descorrelacionados ajuda muito a diminuir esse sentimento, dado que seus componentes tendem a não se mover juntos para a mesma direção. Mas vamos dar um passo para trás: vamos entender o contexto atual do conflito e dar uma olhada para conflitos passados?
Até o início do conflito no Oriente Médio, as economias estavam saindo de um contexto de inflação mais elevada, após a pandemia, com bancos centrais aos poucos diminuindo os juros (que estão em patamares historicamente elevados) à medida que a inflação caminha em direção à meta. A discussão era sobre a forma do “pouso” da economia: será que os juros ainda elevados iriam enfraquecer demais a atividade econômica ou a inflação iria demorar a cair?
Essa situação mudou com o conflito, com as incertezas se concentrando agora no tamanho do impacto inflacionário que o fechamento do Estreito de Ormuz e a destruição de infraestruturas energéticas irão provocar. O mercado, que previa mais dois cortes de juros pelo banco central americano neste ano, já não prevê mais corte algum, com dúvidas se teremos o inverso: aumento de juros.
Desde o início do conflito, em todos os nossos conteúdos, frisamos que a palavra-chave para compreender o seu impacto é: duração. A cada nova semana com restrições na oferta de derivados de petróleo e gás natural, além de fertilizantes e alumínio, o potencial de um impacto inflacionário maior e mais duradouro se eleva.
Olhar para conflitos anteriores e como os principais ativos se comportaram é interessante para percebermos padrões, mas é essencial perceber que cada conflito possui suas particularidades, como contexto, momento histórico, local e participantes, todos eles influenciando no comportamento dos ativos. O 1° e 2° choques do petróleo nos anos 1970, por exemplo, ocorreram em um momento em que a participação da OPEP na produção mundial era muito maior e o mundo dependia mais do petróleo, já que as fontes renováveis não haviam ganhado expressão.
Em geral, sem entrar em detalhes específicos por conflito, podemos notar como:
- O petróleo em todos os conflitos subiu nos primeiros meses, mas a manutenção de preços em níveis elevados por um período maior dependeu principalmente da duração da respectiva guerra e do seu impacto real na restrição da oferta. A Guerra do Golfo, por exemplo, acabou rapidamente e a da Ucrânia, por outro lado, teve pouco impacto na oferta final, com o petróleo russo sancionado sendo consumido pela China e Índia, com isso, após o choque inicial, os preços caíram;
- Mesmo com o S&P 500 em geral sofrendo nos primeiros 6 meses dos conflitos, é notável a resiliência do índice, que, com exceção do 1° Choque, viu sua cotação subir em todos os outros cenários, com o pânico inicial se traduzindo em bons momentos de compra a longo prazo;
- O ouro demonstra seu papel histórico de ativo de proteção, subindo em momentos em que as incertezas se elevaram, mesmo com os juros das Treasuries americanas também subindo, o que costuma ter um impacto negativo no metal;
- Os juros das Treasuries americanas costumam responder rapidamente aos temores de pressões inflacionárias, mas a sua manutenção em patamares elevados depende da duração do choque de oferta do petróleo. Conflitos como a Guerra do Golfo, de curtíssima duração e pouco impacto na oferta, tiveram um impacto a curto prazo na elevação dos juros longos, mas que se dissipou em poucos meses.
Por fim, olhar para o passado nos mostra como a curto prazo, conflitos como o atual costumam provocar forte volatilidade no mercado, com a incerteza sendo seu principal motor. A longo prazo, por outro lado, a manutenção desses preços depende primariamente do tamanho e da duração efetivos da restrição da oferta global de petróleo. O conflito atual promoveu o fechamento de Ormuz e a restrição de cerca de 20% do petróleo importado mundialmente, logo o tamanho da restrição é uma das mais relevantes dentre os conflitos citados. O ponto crucial é a sua duração.








