Aula Magna Henrique Meirelles
A leitura de Meirelles sugere que o Brasil entra nesse novo ciclo global partindo de uma base fiscal fragilizada. Em um contexto em que o choque do petróleo adiciona pressão inflacionária e aumenta a incerteza global, a margem de manobra da política monetária se reduz ainda mais. Assim, o país passa a conviver com uma combinação desafiadora: um ambiente externo mais volátil e um quadro interno que limita a capacidade de resposta. Sem avanço consistente na agenda fiscal e nas reformas, o risco é de perpetuar um cenário de juros elevados, menor crescimento potencial e maior sensibilidade a choques externos.
Crescimento econômico com base frágil
Henrique Meirelles avaliou que, embora o Brasil venha apresentando crescimento do PIB a taxas razoáveis, esse desempenho tem sido fortemente impulsionado pelo aumento dos gastos públicos e pela expansão da dívida. Segundo ele, trata-se de um crescimento que carece de sustentação no longo prazo, justamente por não estar ancorado em fundamentos fiscais sólidos e aumento da produtividade.
Necessidade de revisão dos gastos e benefícios
O economista defendeu uma revisão mais profunda dos benefícios sociais e fiscais. Embora reconheça a importância dos programas sociais, argumentou que houve uma expansão muito pronunciada desses gastos, o que os torna insustentáveis. Além disso, destacou que o volume de benefícios fiscais atinge cerca de R$ 800 bilhões por ano, sendo que nem todos apresentam eficiência comprovada — citando como exemplo a desoneração da folha, cujo efeito positivo teria se dissipado ao longo do tempo.
Fragilidade do arcabouço fiscal
Meirelles também criticou a implementação do arcabouço fiscal, apontando que, embora tenha sido criado, sua execução carece de maior compromisso e firmeza. Ele destacou que a existência de diversas exceções à regra enfraquece sua efetividade, mencionando que cerca de R$ 170 bilhões em despesas ficaram fora dos limites fiscais em 2025 e 2026. Segundo ele, regras com múltiplas flexibilizações tendem a ser utilizadas na direção da expansão do gasto.
Consequências do descontrole fiscal
O ex-ministro foi enfático ao afirmar que não é possível contornar as leis econômicas. Para ele, o aumento excessivo de gastos públicos inevitavelmente resulta em elevação da dívida, maior inflação e juros mais altos. Ainda que ajustes contábeis possam aliviar restrições no curto prazo, eles não eliminam os efeitos reais sobre a dinâmica fiscal e macroeconômica.
Reformas e papel do setor privado
Por fim, Meirelles defendeu que o caminho para um crescimento mais robusto e sustentável passa pela realização de reformas estruturais e pelo fortalecimento da responsabilidade fiscal. Segundo ele, o melhor programa social é a geração de empregos pelo setor privado, o que depende de um ambiente macroeconômico estável, com juros mais baixos e maior previsibilidade.
Choque do petróleo e impacto inflacionário
No cenário externo, Meirelles destacou que a alta do preço do petróleo tem efeitos amplos sobre a economia global. O encarecimento da commodity eleva diretamente os custos de transporte, o que se dissemina por praticamente toda a cadeia produtiva, pressionando as expectativas de inflação. Trata-se, portanto, de um choque inflacionário relevante, com impacto não apenas localizado, mas em escala global.
Importância da geopolítica e do Estreito de Hormuz
O ex-ministro enfatizou que as decisões de política monetária estão diretamente condicionadas à duração do conflito no Oriente Médio e, principalmente, ao comportamento do fluxo de comércio no Estreito de Hormuz. Trata-se de um ponto estratégico para o transporte global de petróleo, e eventuais disrupções podem amplificar os impactos sobre preços e inflação. Nesse contexto, Meirelles afirmou que não é razoável exigir previsões precisas do Banco Central, dado o elevado grau de incerteza.
Atuação do Banco Central em ambiente de incerteza
Diante desse cenário, Meirelles ressaltou que o Banco Central terá de conduzir a política monetária em um ambiente de maior indefinição. Segundo ele, ainda não é possível afirmar com segurança se o cenário levará a um corte de juros — como um movimento de 25 pontos-base — ou a uma postura mais cautelosa, com manutenção da taxa. A condução da política monetária passa, portanto, a depender mais fortemente da evolução dos riscos no cenário externo.
Painel 1: Open Finance, Pix e Inteligência Artificial (IA) como um futuro financeiro no Brasil
Neste painel, os convidados relembraram o caminho dos avanços de infraestrutura que o mercado de capitais brasileiro passou, com João Manoel e Ana Carla destacando o Open Finance e o Pix como a fase final de um processo de amadurecimento que buscou, em etapas sucessivas, estabilidade, solidez e, por fim, eficiência.
Com o Plano Real e a estabilização econômica, o mercado e o legislador se voltaram ao fortalecimento do sistema, com normas bancárias rigorosas e a criação de instrumentos de segurança jurídica, como a alienação fiduciária, hoje tida como algo comum, mas que transformou a dinâmica de crédito no país, culminando na expansão do crédito imobiliário e automotivo.
O ganho de eficiência: Pix e a digitalização bancária
Com a construção de um sistema financeiro sólido e bem regulado, o próximo passo foi o ganho de eficiência. Nesse sentido o Pix é destaque, criado em 2020 e, centralizado no BCB, com adoção massiva e muito rápida, tornando-se referência global e diminuindo a necessidade de intermediários financeiros.
Como destacou Danilo Igliori, esse processo de digitalização bancária e de diminuição de custos de transação foi o que possibilitou ao brasileiro ter hoje acesso a investimentos internacionais com tickets de entrada muito reduzidos. Outro fator destacado é como o sistema se tornou porta de entrada para brasileiros desbancarizados, que agora têm acesso digital, rápido e muito barato a produtos financeiros.
Pouco antes do Open Finance, que ligou instituições financeiras e deu visibilidade a elas do comportamento de seus clientes em outras plataformas, o cadastro positivo foi um dos avanços nessa trajetória de ganho de eficiência e solidez, em busca de popularizar um crédito mais justo, reduzindo externalidades e premiando o bom pagador.
Open Finance e IA: a era dos dados
O próximo passo foi o Open Finance, que como Ana Carla destacou, é uma revolução silenciosa, já reunindo mais de 700 instituições, acumulando cerca de 170 milhões de consentimentos e registrando 10 bilhões de chamadas de dados por semana, dada a escala que o sistema tomou.
Outro ponto importante destacado é a educação promovida pelas instituições financeiras, para que o consumidor entenda como o sistema funciona, principalmente a nível de autorizações e de seus benefícios. É notável o papel delas na construção dessa infraestrutura, dado que, ao contrário do Pix, que nasceu dentro do Banco Central, o Open Finance veio de uma iniciativa conjunta com as instituições privadas, sob liderança do BCB.
Na vanguarda do tema de dados, ao abordar o tema de IA, foi consensual a ideia de que não se trata de uma tendência futura, mas de uma revolução em curso. Nesse sentido, a digitalização do sistema financeiro nacional e iniciativas como o Open Finance são cruciais nesse processo, concentrando os dados e tendo uma plataforma regulada, abrindo espaço para inovações muito mais rápidas.
Por fim, um contraponto sobre segurança: agregar dados, mesmo que sob um regulador sólido como o BCB, não seria um problema? João Manuel reconhece que o risco existe, sendo inerente a qualquer sistema, mas o mais importante é definir qual risco é aceitável e garantir transparência, e trabalhar rapidamente para mitigar problemas.
Painel 2: O futuro do mercado de capitais no Brasil
1980 até hoje: da preservação patrimonial até o olhar para o cliente
Cacá Takahashi e Carlos Omine, que estão no mercado desde os anos 80, lembraram do período da hiperinflação e do overnight, em que o objetivo era o de puramente mitigar a perda patrimonial com aplicações com duração de 1 dia, destoando completamente da realidade atual. Para eles, o mercado passou por uma transformação após a estabilidade econômica com o Plano Real, que levou a um fortalecimento dos IPOs, melhoria significativa na liquidez e evolução nas prateleiras de produtos, incluindo FIIs, ETFs e ativos de crédito mais evoluídos. Tudo isso levou o mercado a deixar de olhar apenas para o produto, focando no cliente.
Fee-based models
Ainda no tema do olhar para o cliente, Caio Fasanella destacou a importância das assessorias de investimentos no início da popularização do mercado de investimentos no Brasil, oferecendo um atendimento individualizado para clientes que até então não tinham acesso àqueles produtos e àquele nível de orientação. Mas, para ele, a estrutura de remuneração baseada em comissões por venda de produtos e o seu consequente conflito de interesses devem dar lugar a um novo modelo.
Nos EUA, o modelo fee-based, em que o cliente paga uma taxa pré-determinada sobre o seu patrimônio, já é o padrão. A ideia é construção de patrimônio a longo prazo, quanto mais segurança, mais ativos são investidos, tudo isso sob uma taxa sobre o patrimônio pré-determinada e clara, reduzindo ruídos e evitando exposição excessiva a produtos menos eficientes por conflito de interesses.
Internacionalização é vital
Os três convidados abordaram um ponto em comum: o acesso à dolarização patrimonial, algo até então restrito a clientes private. Seja por instrumentos nacionais em bolsa, como BDRs de ETFs americanos e ETFs propriamente ditos, e, mais recentemente, via investimento direto no mercado americano, o investidor agora tem acesso a ativos de todo o mundo, algo impensável há poucos anos.
Atualmente, cerca de 3% do patrimônio do brasileiro está offshore, muito abaixo de pares em desenvolvimento e até mesmo regionais, como o Chile, e abaixo do recomendado por especialistas. A infraestrutura já existe: plataformas, produtos e acesso ao exterior nunca foram tão fáceis. O que ainda falta é mudança de comportamento, estamos no início dessa transição — e os investidores que começarem a se globalizar agora tendem a construir portfólios mais robustos, sofisticados e preparados para o longo prazo.
Painel 3: Onde estão as oportunidades de investimentos em 2026
Luis Parreiras (Verde Asset), Andrew Reider (WHG) e Paula Zogbi (Nomad) abriram linhas de debates em relação às estratégias de alocação global para 2026. Uma análise desde o cenário geopolítico global, até discussões sobre IA.
Geopolítica
No início do painel, o debate girou em torno do quadro geopolítico atual, em especial da mudança que ocorreu com o início da guerra no Irã. Paula Zogbi destacou como o ano passado foi marcado por um fluxo de capitais saindo dos EUA, visando economias com valuations mais interessantes em um contexto de enfraquecimento do dólar. A guerra mudou esse cenário.
Até então o panorama era de convergência inflacionária gradual nos EUA, com o mercado avaliando a suavidade do “pouso”. Como destacou Luiz Parreiras, se o choque nos combustíveis se prolongar, teremos uma desaceleração do crescimento global importante, alterando completamente o cenário de crescimento acelerado com inflação controlada.
IA: a grande mudança estrutural
Mas isso é apenas um dos lados da moeda. Uma dinâmica muito mais forte e estrutural é a transformação promovida pela inteligência artificial. Os ganhos de produtividade tendem a ser impressionantes e a dinâmica setorial pensando no lado do investidor também sofrerá alterações. Como Andrew Reider destacou, ativos reais têm ganhado destaque nesse cenário. Cobre, ativos de infraestrutura, energia, data centers, teses que são necessárias para essa revolução ocorrer podem ganhar grande destaque. E os investimentos serão massivos para que ela ocorra.
Diversificação geográfica
Outro ponto relevante levantado por Andrew e discutido pelos demais participantes foi a diversificação. E aqui ela vai muito além de algo setorial, estendendo-se para o âmbito geográfico. O fluxo que se iniciou no ano passado em direção a outras economias tende a continuar. Como Parreiras destacou, o mundo está sobreinvestido nos EUA e a diversificação é o único almoço grátis que temos. A resposta óbvia quando pensávamos em diversificação, que era comprar dólar e S&P500, já não é mais o todo, sendo apenas uma camada. Nesse sentido, países emergentes ganharam destaque, estando subvalorizados e com exposição a setores resilientes e que podem se beneficiar da revolução de IA.
Por fim, um dos ativos mais citados foi o ouro. Como Zogbi pontuou, o ouro deixou de ser uma posição marginal, sendo algo muito mais estrutural nos portfólios, dadas as suas características de descorrelação e de proteção em momentos de incerteza, como estamos vivendo.
Aula Magna Nouriel Roubini: Cenário Econômico Global: Hiper-incerteza, Revolução Tecnológica e a Nova Ordem Multipolar
A aula magna de Nouriel Roubini trouxe as perspectivas apresentadas pelo economista, que é muito reconhecido por seu rigor analítico na identificação de riscos sistêmicos e crises financeiras. Roubini explorou durante a sua aula, a transição da ordem global para um estado de "hiper-incerteza". Sua tese equilibra as vulnerabilidades geopolíticas e fiscais contemporâneas com o potencial disruptivo da Inteligência Artificial, oferecendo uma visão estrutural sobre o futuro do crescimento econômico e a resiliência dos mercados de capitais.
De 1970 à Hiper-incerteza: a transição das ordens econômicas
O cenário global é analisado sob a ótica de uma transição histórica, partindo da estagflação dos anos 70 e passando pela "Grande Moderação" e pela estagnação secular pós-2009. Atualmente, o mercado enfrenta um estado, que Roubini nomeia como hiper-incerteza, caracterizado por choques de oferta e riscos geopolíticos sem precedentes. No entanto, ele ressaltou que ao contrário do período pós-2008, o ambiente atual não sinaliza apenas riscos estagflacionários, mas a possibilidade de um crescimento secular. Este movimento seria sustentado por um choque positivo de produtividade, capaz de alterar a trajetória de crescimento potencial das economias desenvolvidas.
A nova fronteira da produtividade
O ponto central da tese apresentada é o papel da Inteligência Artificial e de um cluster de outras tecnologias emergentes que serão responsáveis por este crescimento secular, incluindo robótica, computação quântica e biotecnologia. O impacto dessas inovações no PIB e na eficiência produtiva é um efeito de primeira ordem que tende a mitigar os efeitos negativos de segunda ordem, como políticas protecionistas ou barreiras tarifárias. A projeção é de que o crescimento potencial dos EUA possa ser elevado de 2% para 4%, o que fundamentaria a sustentabilidade dos retornos do mercado acionário e a solvência da dívida pública via expansão do denominador (PIB).
Geopolítica G0 e o Excepcionalismo Americano
A análise geopolítica descreve a transição de um mundo unipolar para um modelo "G0", marcado pela fragmentação, nacionalismo econômico e pela ascensão de "potências médias" ou "estados-pêndulo". Nesse contexto, o orador defende a continuidade do excepcionalismo americano, sustentado pelo dinamismo do setor privado e pela hegemonia do dólar como moeda de reserva, dada a ausência de alternativas estruturais. A disciplina de mercado, exercida pelos "vigilantes dos títulos" (bond vigilantes), é apontada como um mecanismo regulador que força a moderação de políticas fiscais ou externas excessivamente agressivas, independentemente do ciclo político.
O Brasil frente às reformas estruturais
Quanto ao cenário nacional, o Brasil é posicionado como uma economia que atingiu estabilidade macroeconômica e baixa inflação, mas que ainda convive com um descompasso fiscal. O sucesso do país no novo arranjo global depende da transição de um modelo dependente do Estado para um ambiente que favoreça o investimento do setor privado. O potencial de alta está vinculado à capacidade de implementar reformas estruturais que elevem o crescimento potencial, aproveitando a posição do país como uma potência média em um mundo multipolar que busca diversificação de cadeias de suprimentos e recursos naturais.





