Ouro e prata têm um dos meses mais voláteis da história; o que justifica?

Múltiplas máximas históricas e dois pregões de quedas acentuadas marcaram o mês dos metais preciosos. O que esperar agora?

por

Paula Zogbi

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Publicado em

30/1/2026

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Há meses, estamos relembrando que o comportamento recente do ouro da prata está fora dos padrões. As altas acumuladas de 90% e 264%, respectivamente, nos últimos 12 meses fechados, não aconteceram sem justificativa, mas não correspondem ao esperado para ativos de reserva de valor historicamente. 

Nos últimos dois pregões de janeiro, ambos os metais viram quedas acentuadas. Apenas nesta sexta-feira (30), o ouro cai aproximadamente 9%, chegando a perder US$500 em valor nominal em menos de uma hora, e a prata chegou a perder quase 30% do valor no intraday. É hora de “comprar as mínimas” ou uma bolha acaba de estourar?

Para entender o que motivou a queda, vamos começar pelas justificativas para a valorização recente. Resumidamente, temos: 

  1. Busca por proteção em meio a uma crise de confiança institucional, com um cenário geopolítico instável, que motiva alocação em reservas de valor.
  2. Compras massivas por bancos centrais que estão “desdolarizando” uma parte das suas reservas, especialmente após o uso de reservas em dólares da Rússia serem usadas como ferramenta política no contexto da guerra na Ucrânia.
  3. Expectativa de cortes da taxa de juros americana, que aumenta o apetite relativo por ativos que não geram renda. 
  4. No caso da prata, uma escassez estrutural em meio a um aumento da demanda no contexto de eletrificação. 

Todos esses fatores foram abordados com mais detalhes na análise Ouro e commodities metálicas como teses de investimento.

Já a queda brusca dos últimos dois dias pode ser atribuída a: 

  1. Mudança de perspectiva sobre a possível captura política do banco central americano, após a nomeação de Kevin Warsh, um nome que agradou o mercado. Menores chances de um Fed conflitado diminuem a crise de confiança nas instituições americanas
  2. Possível fortalecimento do dólar, após uma leitura de preços ao produtor mais pressionados que o esperado. Como o ouro e a prata são cotados em dólar, uma moeda americana forte torna os metais mais caros para o resto do mundo, pressionando os preços para baixo.
  3. Especialmente no caso da prata, uma inundação de investidores de varejo e indícios de posições alavancadas, com alguns dias do mês representando recordes de fluxos para ETFs do metal. Investidores de varejo, especialmente alavancados, são mais propensos a movimentos de manada. 

Embora movimentos de correção sejam normais e esperados após altas consideráveis (nenhum ativo de renda variável sobe em linha reta), a decisão sobre manter ou incluir essa estratégia em uma carteira de investimentos agora deve ser tomada com cautela.

Fundamentalmente, os fatores que motivaram as altas até aqui permanecem, com um cenário geopolítico ainda nebuloso, provável retomada do ciclo de cortes de juros e demanda industrial forte para a prata. Por outro lado, o movimento mais recente sugere forte grau de atividade especulativa, que pode trazer mais volatilidade, especialmente no curto prazo. Para quem não tem apetite para o risco de "pegar a faca caindo", o momento é de cautela.

Paula Zogbi

Estrategista-chefe da Nomad, tem mais de 10 anos de experiência no mercado financeiro, foi head de conteúdo na XP, analista na Rico e jornalista na InfoMoney e EXAME. É graduada em jornalismo pela USP e tem certificação CNPI pela Apimec.

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