Existe uma diferença entre acompanhar o mercado e investir antecipadamente nas forças que vão moldá-lo nos próximos anos. Um ETF amplo, como os que replicam o S&P 500, entrega o retorno médio do mercado com eficiência e baixo custo. Mas e quando o objetivo é ir além disso?
É para responder a essa pergunta que existem os ETFs temáticos, e é exatamente sobre esse universo que trata o sétimo episódio da série Ações Americanas. Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad, e Danilo Igliori, economista-chefe da Nomad, foram até Nova York visitar o escritório da Global X, uma das gestoras mais reconhecidas do mundo nesse segmento, e conversar com Arelis Agosto, diretora de Research & Strategy da empresa.
O que são ETFs temáticos
Antes de entender o que torna um ETF temático diferente, vale ter claro o que ele não é.
Um ETF de índice replica o desempenho de uma cesta ampla de ativos, como o S&P 500. Um ETF setorial concentra exposição em um setor específico da economia, como tecnologia ou saúde. Um ETF geográfico foca em um país ou região.
Os ETFs temáticos funcionam de outra forma. Eles partem de uma tendência e buscam as empresas que se beneficiam dela, independentemente do setor em que cada uma atua. Tratam-se de fundos negociados em bolsa que investem em empresas ligadas a uma tendência estrutural específica, como inteligência artificial, energia limpa ou segurança cibernética. Em vez de replicar um índice amplo, eles concentram exposição em teses de crescimento de longo prazo que podem entregar retornos acima da média do mercado. Mas também implicam maior concentração e risco quando comparados a ETFs amplos."
Paula Zogbi explica bem essa distinção: "Quando você compra um ETF temático, você pode se expor a mais de um setor. O ETF de Digital Health da Global X, por exemplo, tem setores como infraestrutura de dados, saúde e tecnologia, desde que expostos a essa tese mais ampla."
Isso significa que a lógica de construção do portfólio muda. O ponto de partida não é o setor, mas a tendência. E a tendência pode atravessar vários setores ao mesmo tempo.
Como a Global X virou referência em ETFs temáticos
A Global X não nasceu como uma gestora de ETFs temáticos. A empresa começou oferecendo exposição a diferentes geografias e, a partir daí, foi expandindo sua linha de produtos.
Arelis Agosto conta que a virada para o universo temático aconteceu há cerca de dez anos, quando a gestora passou a oferecer exposição ao crescimento das mídias sociais como tema de investimento. O que começou como uma aposta num segmento específico se transformou em uma das especializações mais reconhecidas do mercado.
Hoje a Global X tem mais de 30 produtos temáticos e integra um mercado que soma mais de US$ 170 bilhões em ativos temáticos sob gestão apenas nos Estados Unidos. "É realmente algo que nos levou por diferentes caminhos. Quando olhamos para os temas que ressoaram com os investidores nos últimos anos, esse crescimento foi significativo desde os estágios iniciais, há 10 anos", resume Agosto.
O que define um tema para a Global X
Nem toda tendência vira um ETF. A Global X tem um critério claro para determinar o que merece se tornar um produto: o tema precisa representar uma mudança estrutural de longo prazo, percebida no cotidiano das pessoas.
Essa definição é importante. Ela diferencia um tema de investimento de uma moda passageira. Uma mudança estrutural é aquela que altera comportamentos, modelos de negócio e infraestruturas de forma permanente e progressiva. Inteligência artificial, eletrificação da economia e segurança cibernética são exemplos de tendências que atendem a esse critério.
Danilo Igliori resume como a Global X traduz essas tendências em produtos acessíveis: "A Global X identifica quais são as grandes tendências e monta ETFs com empresas que trabalham num mesmo setor. Por exemplo, energia limpa, ou inteligência artificial, ou até temas como segurança cibernética."
Beta e alfa: o que o índice entrega e o que os temáticos podem acrescentar
Para entender o papel dos ETFs temáticos dentro de uma carteira, é útil conhecer dois conceitos centrais do mercado financeiro: beta e alfa.
O beta representa o retorno médio do mercado. Quando você investe em um ETF que replica o S&P 500, por exemplo, você está capturando o beta do mercado americano. É uma estratégia eficiente, de baixo custo e amplamente recomendada como base de qualquer carteira.
O alfa é o retorno acima desse mercado. Ele pode vir de uma análise mais apurada, de uma aposta em um setor específico ou da exposição antecipada a uma tendência antes que ela se torne consenso.
Paula Zogbi conecta os dois conceitos ao papel dos ETFs temáticos: "O mercado como um todo oferece o beta, mas para buscar o alfa, aquele retorno acima da média do mercado, , uma alternativa é se expor a teses específicas. E já existem formas de fazer isso sem precisar fazer stock picking, ou seja, escolher ações individualmente."
Essa é a proposta dos ETFs temáticos: oferecer acesso a teses de alto crescimento com a praticidade e a diversificação de um fundo negociado em bolsa.
Estratégia core-satellite: como combinar ETFs amplos e ETFs temáticos
Uma das formas mais inteligentes de usar ETFs temáticos é dentro do que o mercado chama de estratégia core-satellite.
A lógica é simples. A parte core (núcleo) da carteira é composta por ativos amplos e diversificados, como um ETF do S&P 500 ou de mercados globais. Ela fornece estabilidade, eficiência de custos e exposição ao crescimento do mercado como um todo.
A parte satellite (satélite) é onde entram as apostas mais direcionadas, como os ETFs temáticos. Ela representa uma fatia menor do portfólio, mas com potencial de capturar retornos acima da média quando as teses escolhidas se confirmam.
Danilo Igliori explica como essa combinação pode funcionar na prática: "Para o investidor da Nomad, a Global X pode servir como algo para compor uma estratégia core-satellite. Por exemplo, você pode ter uma alocação core usando um ETF do S&P 500, e aí compor a sua alocação selecionando diferentes temas através dos ETFs da Global X."
Para quem quer entender melhor os diferentes formatos disponíveis antes de montar essa composição, vale explorar os tipos de ETFs que existem no mercado americano.
Quais temas estão em destaque agora
A Global X acompanha de perto quais temas estão ganhando tração entre os investidores. Nos últimos anos, alguns se destacaram com clareza.
Inteligência artificial segue no topo. O ETF AIQ, da Global X, capturou cerca de US$ 3,6 bilhões em fluxos apenas no ano passado, reflexo do interesse crescente dos investidores por empresas ligadas à inteligência artificial. Mas Arelis Agosto aponta que a conversa já evoluiu: não basta ter exposição ampla ao tema. A pergunta agora é o que pode complementar essa alocação.
As respostas levam a uma série de temas adjacentes que se tornaram inseparáveis do avanço da IA, como construção de data centers, eletrificação da economia, e até commodities tradicionais com nova relevância estratégica.
O cobre, por exemplo, é essencial para a infraestrutura de data centers e para a eletrificação em geral. O urânio ganhou destaque pelo papel que a energia nuclear pode ter no abastecimento da crescente demanda energética dos centros de processamento de dados.
"A quantidade de informação nos trouxe para a convergência de temas em commodities mais tradicionais. Cobre em termos de construção de data centers ou eletrificação. Urânio quando se trata de como alimentar toda a construção de data centers que esperamos ver nos EUA", explica Agosto.
Outro tema que a diretora destaca é a tecnologia de defesa, especialmente em ambientes de alta volatilidade. Para ela, esse é um setor com contratos de longo prazo que podem ser mais resilientes às oscilações do mercado de curto prazo, tornando-o uma possibilidade interessante para quem busca teses mais defensivas dentro da camada satellite da carteira.
O que o investidor precisa saber antes de escolher um ETF temático
ETFs temáticos não são produtos para qualquer perfil de investidor ou para qualquer horizonte de tempo. Entender suas características é fundamental antes de incluí-los em uma carteira.
O primeiro ponto é o horizonte. Temas estruturais levam tempo para se desenvolver. A tese de um ETF de inteligência artificial ou de energia limpa pode levar anos para se traduzir em retornos expressivos. Quem entra buscando resultados de curto prazo pode se frustrar com a volatilidade do caminho.
O segundo ponto é a concentração. Por definição, um ETF temático é menos diversificado do que um ETF amplo. Ele aposta em uma tendência específica, e se essa tendência demorar mais do que o esperado para ganhar escala, ou se enfrentar obstáculos regulatórios e tecnológicos, o desempenho pode ficar aquém do mercado por períodos prolongados.
Por isso, a estratégia core-satellite faz sentido: ela mantém a base sólida no índice amplo e reserva uma fatia menor do portfólio para teses de maior potencial e maior risco.
Paula Zogbi sintetiza bem a proposta de valor desse tipo de produto: "Os ETFs temáticos são uma forma de você se expor a tendências que podem ser a nova fronteira do mercado. Se você está exposto ao mercado de maneira geral, mas com uma parcela do seu portfólio exposta a essas teses de maior potencial de crescimento, há a possibilidade de capturar retornos acima do índice no longo prazo, sabendo que maior potencial de retorno implica também maior risco."
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Todos os investimentos envolvem risco, e você pode perder dinheiro. É importante diversificar seus investimentos e considerar seus objetivos financeiros individuais e tolerância ao risco. Os principais riscos para diferentes tipos de investimento incluem:
Ações (Equities): Sujeito a flutuações do mercado; seu valor pode diminuir.
ETFs: Apresentam riscos de mercado semelhantes aos das ações e podem não acompanhar perfeitamente o seu índice. Os ETFs alavancados e inversos podem apresentar riscos mais elevados.





