Por que a queda do iene faz o juro americano subir

Entenda a relação entre o iene e os juros americanos e o que está por trás da recente intervenção na moeda

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Bruno Shahini

5 min

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Publicado em

3/8/2026

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O mercado de Treasuries e o iene guardam uma interdependência que ficou visível na semana passada. A estrutura de causalidade não é simples e opera nos dois sentidos, mas o canal mais direto passa pela mecânica de reservas internacionais na intervenção nos mercados de câmbio.

O ponto de partida é a depreciação do iene, que rompeu 160 por dólar e alcançou o nível mais fraco desde 1986. Dois fatores explicam o movimento. O primeiro é o diferencial de juros: o Banco do Japão mantém a taxa básica em 1,0% e o carrego favorece posições vendidas na moeda em iene e compradas em dólares. O segundo é o choque de petróleo decorrente da guerra entre Estados Unidos e Irã e do fechamento do Estreito de Ormuz. O Japão importa a quase totalidade do petróleo que consome, e a alta do preço deteriora seus termos de troca: o valor da cesta importada cresce em relação ao da cesta exportada, o que pressiona a moeda. O déficit comercial japonês superou US$ 6 bilhões no primeiro semestre.

Conter a depreciação importa porque a moeda fraca amplifica o repasse do preço da energia aos preços domésticos. O próprio BoJ projeta IPC acima de 2% no segundo semestre do ano fiscal de 2026.

A intervenção segue a mecânica padrão de qualquer banco central: vender dólares e comprar a moeda local. No entanto, as reservas não são mantidas em dólares à vista, e sim aplicadas em títulos do Tesouro americano — o Japão é o maior detentor estrangeiro da dívida americana, com US$ 1,114 trilhão ao fim de maio. Para obter os dólares da intervenção, é preciso vender parte dessa carteira de treasuries.

É aqui que a cotação do iene se conecta à curva americana. A venda eleva a oferta do papel no mercado secundário, o preço cede e a taxa sobe, dada a relação inversa entre as duas. Na sexta-feira, o juro de dez anos avançou mais de nove pontos-base, para 4,73%, o maior nível desde 2023, e o de trinta anos alcançou 5,26%, patamar não observado desde 2007.

Agora a dinâmica que o tesouro americano busca conter: o juro americano mais alto enfraquece o iene ao ampliar mais ainda o diferencial, e o iene mais fraco, por sua vez, pressiona o juro americano pela venda maciça de treasuries. Por isso, o Tesouro americano participou da compra de ienes pela primeira vez desde 2011. A leitura é que Washington agiu no câmbio para defender o próprio mercado de dívida — ao sinalizar que não tolera o iene em níveis extremos, reduz a necessidade de o Japão liquidar Treasuries e alivia a pressão de venda sobre sua própria curva de juros. 

Bruno Shahini

Com 9 anos de experiência no mercado financeiro, atuou na Votorantim Asset e no Banco Daycoval, é economista formado no Insper e possui as certificações CFP® (Certified Financial Planner) e CGA (Gestão de Gestores ANBIMA)

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