
No gráfico desta semana, analisamos, por setor, os pedidos de recuperação judicial e de falência a cada ano e comparamos com a Selic média do período. É claro que cada companhia está imersa em desafios que explicam sua situação pontualmente, mas é interessante notar como o fator custo de capital é relevante no agregado, com momentos de taxa de juros mais elevadas coincidindo com topos de falências corporativas.
A Selic elevada tem explicação em três frentes que se reforçam. A primeira é fiscal: os seguidos déficits fiscais e a trajetória da dívida em relação ao PIB pressionam os juros. A segunda é a inflação: a projeção do Boletim Focus para o IPCA de 2026 está em torno de 5%, acima do teto da meta, o que exige uma Selic restritiva para reancorar as expectativas. A terceira é o cenário externo: os juros americanos seguem em patamares bem elevados, com expectativas inclusive sobre potenciais elevações, o que reduz o apetite global por risco em emergentes e obriga o Brasil a manter um prêmio de juro real mais alto para atrair capital e financiar sua dívida.
Até abril de 2026, últimos dados do Serasa Experian, foram 836 pedidos de recuperação judicial e falência, abaixo da média de 1.014 registrada no mesmo período de 2024 e 2025. O número menor, porém, não impediu que este ano trouxesse alguns dos casos mais relevantes da série recente, com grandes nomes como Casas Bahia, a Marabraz e o Grupo Toky, controlador de Tok&Stok e Mobly somando R$ 18 bilhões em passivos levados à Justiça.
O setor que mais chama atenção no gráfico é a Agropecuária. Historicamente uma fatia pequena do total, o setor saltou para 19% dos pedidos em 2024, 23% em 2025 e segue em 21% neste ano, refletindo margens apertadas nas últimas safras, juros elevados no crédito rural e o tempo de defasagem entre a queda dos preços das commodities e o aperto de caixa do produtor. Não à toa, bancos com maior exposição ao agro sentiram o efeito nos balanços: o Banco do Brasil, um dos maiores financiadores do setor, encerrou 2025 com R$ 39 bilhões em perdas provisionadas (PDD) na carteira rural.
Para 2027, o cenário tende a seguir desafiador, mesmo com o Boletim Focus projetando quedas nas taxas de juros domésticas para a faixa dos 12% a.a., dado que os três fatores citados que vêm mantendo os juros em patamares elevados (inflação elevada, cenário fiscal e juros elevados no exterior) tendem a se manter.




