A concentração cobra seu preço
Duas narrativas vinham dominando as alocações em ações nos últimos meses: a infraestrutura de inteligência artificial nos Estados Unidos e, no Brasil, o “trade eleitoral”. Em outubro, ambas foram testadas na mesma janela de dez dias, e trouxeram forte volatilidade à carteira de quem estava posicionado de forma concentrada.
O caso brasileiro foi o mais extremo. O Ibovespa começou outubro em forte alta, chegando a negociar perto de 210 mil pontos na máxima depois do primeiro turno, com o dólar voltando a operar abaixo de R$ 5,00 e o DI para 2031 em torno de 12,5%. Em 25 de outubro, o presidente Lula foi reeleito, contrariando o cenário que boa parte do mercado havia colocado no preço. Na sessão seguinte, a B3 acionou o circuit breaker, o primeiro desde março de 2020. O Ibovespa chegou a cair 17,34% no intradiário e fechou em queda de 13,88%, aos 176.608 pontos — a maior queda diária desde o início da pandemia. O dólar subiu 8,21%, a R$ 5,403, depois de tocar R$ 5,605, em uma variação diária que não se via havia mais de duas décadas.
Nada mudou na economia brasileira entre a sexta-feira e a segunda-feira. A dívida pública seguia acima de 80% do PIB, o orçamento seguia comprometido com gastos obrigatórios e a inadimplência de famílias e empresas seguia em níveis recordes. O que mudou foi a expectativa que o mercado atribuía a um ajuste mais rápido dessas variáveis.
A discussão relevante agora volta a ser de execução: a composição da equipe econômica, a relação com o Congresso e o desenho do orçamento. Até que esses sinais se tornem fatos, tratamos o Brasil como uma posição a ser dimensionada com cuidado, em ativos defensivos. Falamos mais sobre o assunto no nosso novo relatório.
Nos Estados Unidos, o Federal Reserve manteve a taxa de juros na faixa de 3,75% a 4,00%, por 10 votos a 2. O detalhe é que o comitê manteve os juros com a inflação acelerando, e não desacelerando, sob justificativa de que as condições financeiras e de crédito já haviam apertado desde a alta de setembro, com os participantes de mercado mais seletivos na alocação de capital.
Esse aperto veio, em boa medida, dos balanços de tecnologia. A queda de meio trilhão de dólares no valor de mercado da Alphabet e o movimento quase nulo da Microsoft após os earnings mostram que o mercado está punindo tanto quem aumenta quanto quem corta o investimento em IA, porque a pergunta que ele quer responder — qual é o retorno sobre esse capital — ainda não tem resposta.
O sinal mais claro de que isso deixou de ser uma discussão de ações está no crédito: os CDS (seguros contra calotes) de cinco anos da dívida dos hyperscalers operam perto dos níveis mais largos do ano. Em outubro, o desempenho do S&P 500 teria sido positivo excluindo as companhias ligadas à IA.
Neste contexto, mantemos a diversificação global, setorial e entre classes como o eixo da nossa alocação. Dentro da renda variável americana, isso significa não deixar que a infraestrutura de inteligência artificial seja a única exposição ao mercado. Entre classes, com juros nominais na casa dos 5%, a renda fixa voltou a cumprir a função de descorrelacionar risco de bolsa. E geograficamente, a exposição a moeda forte continua sendo uma tese permanente, não tática, em meio a todos os desafios de um país emergente em pleno processo de readequação fiscal.









