As eleições de 2026 provocaram um dos episódios de maior volatilidade da bolsa e do dólar dos últimos ciclos eleitorais. Em menos de um mês, o mercado mudou de direção duas vezes.
Depois do 1º turno, o Ibovespa subiu 7,7% em um único dia e o dólar caiu 4,8%. Depois do 2º turno, o movimento se inverteu: o Ibovespa caiu 13,9% no primeiro pregão, com acionamento do circuit breaker, e o dólar subiu 7,9%. Segundo o relatório da Nomad Insights, o principal fator foi a aposta do mercado em um único resultado, que não se confirmou.
Para 2027, segundo o relatório, o foco tende a ser a trajetória fiscal. Continue lendo para entender o que aconteceu, o que os números revelam e por que diversificar pode ajudar a atravessar períodos assim com mais equilíbrio.
Os dados deste artigo são do relatório "Eleições no Brasil: da euforia à correção", da Nomad Insights, com base em dados da FactSet atualizados até 29 de outubro de 2026.
Como foi a eleição presidencial de 2026
A disputa presidencial aconteceu entre 4 e 25 de outubro, em um cenário de forte polarização. De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição com Geraldo Alckmin (PSB) como vice. Do outro, o senador Flávio Bolsonaro (PL), ao lado de Alfredo Gaspar (PL).
No 1º turno, Flávio Bolsonaro terminou na frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. O dado pesou nas expectativas: desde 1989, quando o Brasil voltou a ter eleições diretas com 2º turno, quem liderava o 1º turno sempre vencia no final.
As pesquisas reforçavam esse cenário. Na véspera da votação, levantamentos de institutos como Datafolha, Quaest e AtlasIntel indicavam disputa apertada, com Flávio à frente por 51% a 49% dos votos válidos.
O resultado de 25 de outubro contrariou as projeções. Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. Foi a primeira vez que um candidato em 2º lugar no 1º turno virou a disputa, e o presidente garantiu um inédito quarto mandato, que vai até dezembro de 2030.
Como a bolsa e o dólar reagiram ao 1º turno
Os meses que antecedem uma eleição costumam trazer mais incerteza sobre os rumos da economia, como mostra o histórico do dólar em ano de eleição. Em 2026, o resultado do 1º turno fez o mercado "precificar" uma vitória de Flávio Bolsonaro, ou seja, ajustar os preços dos ativos como se esse desfecho fosse o mais provável.
Ibovespa: alta de cerca de 3,5 vezes a média histórica
No primeiro pregão após o 1º turno, o Ibovespa subiu 7,7%. A média histórica para o mesmo dia, considerando as eleições de 2002 a 2022, é de 2,1%. Ou seja, a alta foi mais de três vezes e meia maior que o padrão.
Na semana, o índice acumulou ganho de 8,8%. Nas duas semanas seguintes, o movimento ficou praticamente estável, com variações de -1,7% e -0,2%. Na prática, o mercado manteve o otimismo até a véspera do 2º turno.
Dólar: queda de 4,8% em um único dia
O dólar caiu 4,8% frente ao real no primeiro dia após o 1º turno, bem acima da queda média de 1,8% nas eleições anteriores. Na semana, a desvalorização foi de 4,7%, movimento que ficou conhecido como efeito Flávio Bolsonaro no dólar.
A semelhança entre o resultado do primeiro dia e o da semana inteira mostra que o ajuste foi concentrado logo na abertura. Depois disso, o mercado sustentou a nova precificação e consolidou um cenário de otimismo.
Por que a correção após o 2º turno foi tão forte
A vitória de Lula não estava nos preços. Por isso, o ajuste foi brusco. No primeiro pregão após o 2º turno, o Ibovespa caiu 13,9%, mais de dez vezes a queda média de 1,3% registrada entre 2002 e 2022.
O dólar subiu 7,9% no mesmo dia, enquanto a média histórica para essa data é de praticamente estabilidade, com alta de 0,1%. Até 29 de outubro, a moeda americana acumulava alta de 7,0% na semana, e o Ibovespa já tinha devolvido com folga toda a valorização conquistada após o 1º turno.
Os dois ativos se comportaram de forma diferente nos dias seguintes. Na bolsa, a pressão vendedora continuou. No dólar, parte do salto inicial foi devolvida, mas sem apagar o movimento de busca por proteção.
O que é circuit breaker e por que ele foi acionado
O circuit breaker é uma trava de segurança da bolsa. Quando o Ibovespa atinge uma queda muito forte em um único dia, as negociações são pausadas temporariamente, para que os investidores tenham tempo de absorver as informações. Entenda em detalhes como funciona o circuit breaker.
Em 26 de outubro, o mecanismo foi acionado logo na abertura, quando o índice chegou a cair 10%.
A assimetria: o que estava (e o que não estava) nos preços
Imagine um mercado em que quase todos apostam no mesmo time. Se o favorito perde, o ajuste não acontece aos poucos: ele vem de uma vez. Foi isso que aconteceu com bolsa e dólar em 2026.
A euforia após o 1º turno concentrou as expectativas em um único desfecho. Quanto maior a distância entre o que estava nos preços e o que de fato aconteceu, maior foi a correção. É por isso que a volatilidade eleitoral de 2026 não foi apenas maior que a média histórica, mas também assimétrica.
2026 x média histórica: os números lado a lado
O que o valuation do Ibovespa revela sobre o ciclo eleitoral
Outro indicador ajuda a entender o que aconteceu: o múltiplo Preço/Lucro (P/L) projetado do Ibovespa para os próximos 12 meses.
O que é o múltiplo Preço/Lucro (P/L)
O P/L mostra quanto o investidor está disposto a pagar por cada real de lucro que as empresas devem gerar. Um P/L de 8x, por exemplo, significa pagar R$ 8 por cada R$ 1 de lucro projetado. Quanto maior o múltiplo, maior a confiança (ou o otimismo) do mercado.
O múltiplo é muito usado na análise fundamentalista e se apoia no lucro por ação (LPA). Em janelas curtas, como as semanas de eleição, as estimativas de lucro quase não mudam. Por isso, a variação de preço aparece quase integralmente no P/L.
De 8,4x para 9,6x e de volta para 8,1x
Veja como o múltiplo do Ibovespa se comportou ao longo do período eleitoral:
- início de agosto, começo oficial das campanhas: 8,4x;
- véspera do 1º turno: 8,7x;
- logo após o 1º turno: 9,6x;
- véspera do 2º turno: 9,4x;
- após o 2º turno: 8,1x.
Entre a véspera e o dia seguinte ao 2º turno, o P/L caiu quase 14%. Considerando o pico de 9,6x, a contração chega a cerca de 16%.
O dado mais relevante é que o múltiplo terminou abaixo do nível de agosto. Isso indica que o mercado não só devolveu o otimismo eleitoral, como passou a exigir um "prêmio de risco" maior, refletindo um desconto de risco maior associado às incertezas sobre a condução fiscal e econômica dos próximos anos.O ciclo de 2026 foi guiado por expectativas, e não por mudanças nos fundamentos das empresas.
O que observar na bolsa e no dólar em 2027
Passada a eleição, o foco do mercado tende a mudar do noticiário político para a execução da política econômica.
Dívida pública e ajuste de gastos no centro das atenções
A forte reação após o 2º turno mostra a sensibilidade do mercado às contas públicas. Segundo o relatório da Nomad Insights, a composição da equipe econômica e o detalhamento de medidas concretas de contenção de gastos e a disposição do governo em sustentar esse compromisso ao longo do ano serão os principais termômetros acompanhados pelos investidores. É importante ressaltar que não é possível prever o comportamento do mercado.
Dois cenários possíveis para os ativos brasileiros
Não é possível prever o comportamento do mercado, mas o relatório da Nomad Insights aponta dois caminhos:
- Ajuste fiscal percebido como crível: pode abrir espaço para a devolução de parte do prêmio de risco, favorecendo a queda dos juros e a recuperação dos múltiplos da bolsa;
- Sinais insuficientes: tendem a manter os juros elevados por mais tempo, o que pesa sobre a atividade econômica e pode manter os ativos brasileiros negociando com desconto.
Entenda também como a Selic afeta sua carteira em cada um desses cenários.
Por que diversificar internacionalmente em anos de eleição
O ciclo eleitoral de 2026 mostrou, na prática, o risco de concentrar todo o patrimônio em um único país. Em poucas semanas, quem tinha uma carteira só com ativos brasileiros passou por uma euforia intensa e, logo depois, por uma das correções mais fortes da história recente da bolsa.
Movimentos como esse não dependem dos fundamentos das empresas, mas de fatores que o investidor não controla: o resultado das urnas, a leitura do mercado sobre a política econômica e o humor diante de cada nova sinalização. A tendência de investir só no próprio país tem até nome, home bias, e é um dos vieses mais comuns entre investidores.
O dólar como contrapeso nos momentos de estresse
Em momentos de estresse doméstico, o real tende a perder valor. Foi o que aconteceu após o 2º turno, quando o dólar subiu 7,9% em um único dia. Isso acontece porque, no regime em que a cotação da moeda flutua livremente, o preço da moeda reage diretamente à percepção de risco. O movimento inverso também ocorre: se o real se valoriza, ativos em dólar perdem valor em reais.
Para quem tem parte dos investimentos em ativos no exterior, essa valorização do dólar pode ajudar a amortecer as perdas da carteira local, já que os ativos em dólar ganham valor em reais justamente quando a bolsa brasileira sofre mais. Funciona como um guarda-chuva: o hedge não impede a chuva, mas pode reduzir o estrago. Essa é uma das razões por trás da estratégia de dolarização de patrimônio.
Além da diversificação de moeda, investir fora amplia as oportunidades. O Brasil representa uma parcela pequena do mercado global, e muitos setores, empresas e temas simplesmente não estão disponíveis na bolsa brasileira.
Diversificar não é apostar contra o Brasil
Diversificar internacionalmente não significa torcer contra o país, nem elimina os riscos de investir. Significa reduzir a dependência de um único cenário político e econômico, distribuindo o patrimônio entre diferentes países, moedas e classes de ativos.
Se você quer entender por onde começar, vale ler o guia sobre como diversificar investimentos e descobrir quanto investir no exterior de acordo com o seu perfil. Com a Conta Investimento Nomad, você pode acessar investimentos internacionais direto pelo app.
Entenda, a partir dos números, como momentos de oscilação reforçam a importância da diversificação, ajudando a equilibrar a carteira diante da volatilidade local.
E para se aprofundar em estratégias de diversificação, a Nomad preparou o material Carteira Blindada, com conceitos para montar uma carteira mais preparada para períodos de turbulência.
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