Copom interrompe cortes e mantém a Selic em 13,75%
Em sua reunião de política monetária de 04 de novembro de 2026, o Copom manteve a Selic em 13,75% ao ano, em decisão unânime, e interrompeu a sequência de cortes. A pausa veio em linha com o que a Nomad e a maior parte do mercado passaram a esperar depois do segundo turno. Nesse período, a combinação de câmbio mais depreciado, petróleo mais caro e expectativas piores reduziu bastante o espaço para um último corte.
O comunicado preserva o cerne da reunião de setembro. O balanço de riscos segue com assimetria altista e praticamente os mesmos fatores de alta e de baixa. O parágrafo sobre política fiscal foi repetido sem alterações, e o comitê mantém a referência à convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante.
As mudanças estão no diagnóstico. O ambiente externo deixou de ser descrito como incerto e passou a ser chamado de mais adverso. O texto agora menciona diretamente o efeito do prolongamento dos conflitos no Oriente Médio sobre o petróleo e a política monetária mais restritiva nas economias avançadas.
No cenário doméstico, o BC aponta moderação mais acentuada da atividade e primeiros sinais de desaquecimento do mercado de trabalho. A inflação cheia e os núcleos voltaram a acelerar e estão acima do teto da meta. As expectativas do Focus para 2026 e 2027 subiram para 5,2% e 4,8%. A projeção do Copom para o horizonte relevante, agora o segundo trimestre de 2028, passou de 3,2% para 3,5%. Essa conta parte de um câmbio de R$ 5,20, abaixo das cotações observadas após a eleição, o que sugere que a projeção talvez não capture toda a pressão cambial recente.
O sinal mais relevante talvez esteja no que saiu do texto. O comitê retirou o trecho sobre a magnitude total do ciclo de calibração, o que pode indicar que os cortes chegaram ao fim, ao menos por ora. Ao mesmo tempo, passou a qualificar a Selic como substancialmente contracionista e colocou a desaceleração da atividade ao lado das expectativas mais altas no parágrafo final. Pode ser uma forma de indicar que o nível atual de juros já seria suficiente e que uma alta não estaria no horizonte imediato.
O Copom não deu pistas sobre os próximos passos. A leitura é de uma pausa que deixa a porta aberta, com as decisões condicionadas à evolução dos dados. O comitê manteve a ênfase em serenidade e cautela na condução da política monetária.
Para além do que está no comunicado, outros fatores tornam a trajetória da inflação especialmente difícil de antecipar. Há choques no horizonte que podem pressionar ainda mais os preços em 2027, como o efeito do El Niño sobre os alimentos, o fim da escala 6x1, a entrada em vigor da CBS e possíveis reajustes de combustíveis. A magnitude desses choques ainda é difícil de estimar. O fiscal deve ser outro ponto central. Será importante acompanhar como o novo governo vai endereçar as contas públicas e se apresentará propostas de reforma capazes de equilibrar o orçamento e colocar a dívida pública em trajetória sustentável. Juntos, esses fatores tendem a tornar a tarefa do BC mais complexa nos próximos meses. Diante desse quadro, nossa expectativa é de manutenção da Selic em 13,75% na próxima reunião do Copom, em dezembro.
Para os mercados, o tom do comunicado pode ajudar a conter parte dos prêmios na curva de juros, sobretudo nos vértices intermediários, ao reforçar a percepção de que o BC segue disposto a manter a política apertada. No câmbio, um diferencial de juros elevado por mais tempo tende a dar algum suporte ao real. Ainda assim, o dólar provavelmente seguirá mais sensível às sinalizações fiscais do novo governo do que à política monetária. Na atividade, uma Selic parada em patamar contracionista por período prolongado deve reforçar a desaceleração do crédito e do consumo. Mais à frente, isso pode voltar a abrir espaço para cortes, desde que as expectativas de inflação parem de subir.



